sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O açougueiro

José saiu da sua terra em busca de oportunidades. Levou consigo o pouco dinheiro guardado durante toda vida. Já tinha quarenta anos e não podia mais esperar. Com três camisas, duas calças e algumas fotos de família, entrou num navio cargueiro rumo ao país que acreditou ser promissor. Qualquer lugar seria melhor que ali, onde tinha sofrido desde pequeno.
Os pais de José trabalharam na terra, assim como seus avós e bisavós. A família nunca saiu de lá e viveram de sol a sol cuidando da roça e esperando o dia seguinte. José teria seguido o mesmo destino, mas os tempos mudaram, grandes fazendeiros se encarregavam de abastecer as cidades e as vilas. A pequena produção agora estragava na cozinha de José. O irmão mais velho vendeu as terras, dividiu o dinheiro entre todos os cinco filhos e cada um seguiu seu rumo.
José foi para a cidade mais próxima e procurou trabalho. Não sabia fazer nada, mas lavar pratos e chão, ele sabia. Era cidade de porto e ele via diariamente as pessoas chegando e saindo. Ele já não tinha terra, raiz, nem vínculos, era hora de partir.
Durante a viagem ajudava os marujos, queria ser útil, fazer amizades, saber como era a vida de um marinheiro que não tinha parada. Olhava como faziam com os peixes. como pescavam, limpavam e cozinhavam. Era divertido, meio nojento, mas ele se fascinava estranhamente pelas facas e cortes. Sentia tesão quando o cozinheiro do navio rasgava de ponta a ponta aquele peixe prateado com o olho vidrado. Toda noite dormia mal, num canto do convés, em cima de sacos de mantimentos. Sonhava com partes de corpo, partes de casa, partes de bicho. Ele se fascinava de dia com os cortes e sonhava à noite com as partes.
Chegou em terra firme, desceu do navio e andou a esmo. Batia nas portas dos bares pedindo emprego, queria fazer qualquer coisa. Foi contratado por um açougueiro que precisava de alguém para fazer o trabalho pesado. Ele passava o dia levando peças enormes de boi para dentro do frigorífico, limpava as bancadas cheias de sangue e sebo e ainda esfregava o chão todo final do dia, antes de ir embora.  Alugou um quartinho perto do trabalho e desmaiava toda noite. Os sonhos continuavam, mas agora eram tripas, pedaços de ossos e sangue, muito sangue. Ele não se assustava com esses sonhos, pelo contrário, acordava excitado e pensava que precisava achar uma mulher para casar. Foi ganhando a confiança do açougueiro que o ensinou a cortar a carne, prepará-la para ser vendida, aproveitar o máximo do animal. Ele treinava bem e decidiu, seria um açougueiro assim que se casasse.
Começou a namorar uma aqui outra ali. Mulher dá trabalho, pede atenção, cobra presentes. Ele já era velho, não tinha mais a paixão da juventude e não tinha muita paciência para as exigências femininas. Se viu com um problema, pois sem mulher ele não conseguiria ter força para ter o próprio negócio. Aceitou casar com Ângela, que tinha se incumbido dele como nenhuma outra. Ela levava as camisas dele pra lavar na casa dela, pois sabia tirar a mancha de sangue e gordura. Ele sujava muito as roupas, mesmo trabalhando de avental. Ela ainda dizia que ele precisava cuidar da barba e do cabelo e comer melhor à noite, para ter menos pesadelos. Ele contava seus sonhos e ela achava que eram terríveis.
Casaram e foram para a cidade vizinha. Com o apoio do patrão, o açougueiro, ele montou seu negócio - Casa de Carnes Corte Sagrado - e devolveu o empréstimo em um ano. Trabalhava duro, feliz, satisfeito com as facas e cortes.
Com filho pequeno, ele trabalhava até tarde para dar conta do negócio. Confiante, não via problemas em ficar aberto enquanto os comerciantes vizinhos iam para casa no final do dia.
Um dia, numa sexta-feira, já perto das sete da noite, dois rapazes tentaram assaltar o açougue de José., ele olhou e pensou nos marinheiros que enfrentavam tempestades e o mar bravo, dominavam peixes-espada enormes, eram corajosos e acima de tudo, ótimos manejadores de facas. Lembrando das cenas da viagem, lançou mão do facão que estava em cima do balcão e acabou com a raça dos bandidos. Demarcou um território, ali ele não seria roubado, nem naquele dia, nem nunca.
Ângela soube do ocorrido e ficou com medo. José a tranquilizou. Os vizinhos comerciantes o parabenizaram pela coragem.  Ele ficou feliz, tinha um solo. Os filhos cresceram e os sonhos continuavam. José avisou a mulher que um dia ele partiria, que seria marujo, não podia ficar preso tempo demais num único lugar. Quando o filho mais velho fez 15 anos, ele passou a chave do açougue para o menino, pegou a mala com três camisas, duas calças, fotos antigas e novas e se despediu daquela vida do porto seguro. Seguiu para a cidade em que desembarcou e se despediu do antigo patrão, agradecendo a acolhida. Reencontrou um antigo amigo, Vladimir, que estava no barco que ele veio e manteve contato desde então. Subiu no navio e percorreu o mundo com eles. Viveu aventuras, agora com seus sessenta anos, sem tanta força, mas com toda a experiência da vida. Ficou nessa vida por dez anos. Navegou pelos sete mares. Escrevia num diário tudo que passava. Mandava cartas para Ângela em cada porto que parava. Mas a aventura parecia se repetir e agora ele sabia, era hora de voltar para casa. Desembarcou num dia de domingo, ensolarado e encontrou a família que o esperava. A mulher sorria, o filho mais velho, de mãos dadas com uma moça jovem e barriguda, já seria pai em breve, e os pequenos tinham crescido. José voltou para sua família, sabia que ali a raiz era tão firme que ventania nenhuma o levaria embora para sempre.

Simone de Paula - 15/09/2017


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Mutações

Já fui queijo, provocando o desejo dos ratos, se protegendo pelas garras da ratoeira.
Já fui rato, que flerta com o queijo, medindo o risco que corre quando cede à tentação.
Já fui gato, que caça ratos pelo prazer de dominar e aniquilar. E ainda ganha de brinde a atenção do dono, que recebe um presente que indica o jogo duplo entre ser domado e não se deixar aprisionar.
Já fui dono de gato, aflito por não ter posse total do meu bicho e curioso sobre o que tem o rato de tão especial que chama a atenção do gato. 
Me fartei de queijo, tentando entender a natureza do rato e aliviar a minha impotência sobre meu próprio gato. 
Pouco importa quem mexeu no meu queijo, porque afinal, a roda gira e na busca de respostas sobre a impossibilidade de alienar um gato, volto a ser queijo, mirando o rato.

Simone de Paula - 05/9/17


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

E de tudo, nada ficou.

Te deixo agora, nessa manhã fria de outono, sabendo que o melhor e o pior que pudemos ter,  já tivemos.
Adorei e odiei você por muito tempo, na esperança de que um dia esses sentimentos opostos pudessem se encontrar na calmaria do amor.
Nada foi em vão, jamais diria isso. Sentir é o que de mais humano posso ter. 
As sensações do corpo, os sentimentos da alma, os sentidos do espírito, guiaram minha razão desnorteada pelos mistérios do desejo e da paixão. Fui mulher no mais íntimo de mim. Te revelei aquilo que só você poderia saber e ainda guardei muitos segredos para os dias que nunca chegarão.
O turbilhão incessante dos meus momentos de vigília calou, abrindo espaço para um vazio há muito esperado. Notei que gostei, mas ainda não queria voltar à mesura que me faz lúcida, polida e educada. Te conservei não por você ou pelo futuro, mas por mim e o passado. 
Hoje decidi, já posso abrir mão, porque tudo que passa pela minha vida, tem apenas esse sentido, ser parte dessa vida.

Simone de Paula - 31/08/2017


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

As interesseiras



João era um cara à moda antiga. Tinha como plano de vida ter um trabalho, família, uma casa. Era só viver como viveram os pais e os pais dos pais. Pretendia seguir o modelo seguro de vida.
Olhava muito as mulheres, especialmente as bonitas, vaidosas, exuberantes. Morria de vontade, mas não cederia à tentação.
Tinha uma certeza, essas mulheres eram interesseiras, queriam um homem para ser burro de carga delas, sustentá-las nas suas comodidades  Junto com esse julgamento, ainda vinha o rastro gelado que começava na espinha e terminava na cabeça: o fantasma da traição. Não, ele não queria isso para ele mesmo.  
Conheceu Clotilde, filha de uma parenta próxima da família. A moça não era muito bonita para os padrões dele, mas era confiável, tinha os valores compartilhados dos membros daquela colônia.  Namorou, noivou, casou. Clotilde fez muitas economias e o ajudou a comprar a casa em que o casal morava. Esforçada, trabalhava duro para dar conta das tarefas domésticas e ainda cuidar bem do marido e filhos. Ele era um homem feliz, realizado, tinha o que almejou.
Olhava para Clotilde com admiração, não por ela, mas por si mesmo de ter escolhido tão bem. Nas épocas de vacas magras ou quando precisavam reformar algum cômodo da casa, Clotilde fazia bolo para fora ou saía para vender panos de prato bordados pela vizinhança, complementando a renda da família. Estava sempre pronta para ajudar João.
Mas o destino tem seu próprio roteiro e Clotilde morreu de repente, vítima de um enfarte fulminante. João foi pego de surpresa e parecia abalado pela perda repentina e inesperada. Cuidou pessoalmente dos trâmites do funeral, chorou as poucas lágrimas que tinha e não conseguia não pensar em quem iria substituí-la. Se sentia culpado por isso, mas era inevitável, igual o rastro da traição toda vez que via belas mulheres.  
Seguiram-se os meses e João parecia querer permanecer viúvo. Sentia falta de alguém ao seu lado, para ele falar do dia quando chegasse em casa ou ter o jantar quente todas as noites. Os filhos vinham e iam de acordo com a vontade deles e João não queria muito ter que continuar cuidando dos marmanjos.
As pessoas achavam que João deveria casar de novo. E, no fundo, ele também achava. Ele não teria ninguém para sofrer quando ele morresse? Os parentes e conhecidos de João começaram a apresentar algumas pretendentes para ele.
No churrasco do aniversário do primeiro neto do primo Orlando, ele foi apresentado à Clarisse, que tinha enviuvado há mais de quatro anos. Ele a achou simpática, mas ela era um pouco gorda e ele não quis investir. Mal sabia João que Clarisse já tinha dito a Orlando que não tinha interesse nele.  Ela era muito atenciosa com os filhos e achou que João não se importava com os dele . Isso foi decisivo para ela.
Depois veio o enterro do tio-avô. Lá, entre uma conversa e outra, João foi apresentado à Heleninha, vizinha do seu Aurélio, o morto. Heleninha era bonita, elegante, era solteira e morava com a mãe, cuidava dela. João a convidou para tomarem um café, ali mesmo no cemitério.  Ele investia pouco para não perder nada. Foram, conversaram e João perguntou se ela estaria interessada em conhecer alguém mais intimamente, ter uma família. Heleninha disse que sim, que ela tinha planos de casar, mesmo mais velha. João se animou e perguntou se ele poderia ser essa pessoa. Ela disse que não, que ela não tinha interesse nele. Esperava alguém nos moldes dela, solteiro. Ele ficou decepcionado, meio sem graça, se achava tão bom partido e ela o dispensou.
Resolveu que não ia mais ter esse tipo de investida entre conhecidos, pois começou a temer pela própria reputação, não gostava de fofocas. Os meninos do escritório falavam muito dos encontros de internet e ele resolveu conhecer sua nova companheira por ali. O processo era o de sempre, olhava as fotos do perfil, conversava, convidava para um café. Mas a cada café ele ouvia novamente um desinteresse da parte delas. Uma queria só ter um companheiro para sair, ir ao cinema, um baile de vez em quando. Outra tinha sua vida, sua casa e não pretendia mudar isso, não casaria de novo. A outra ainda tinha muitas amizades e só pretendia ter um amigo para conversar. Uma delas foi clara, queria um homem para sexo, pois isso era a única coisa de que sentia falta. Com essa ele se animou. Marcaram um novo encontro.  Saíram, jantaram, foram ao motel. E lá João percebeu que ela estava bem certa do que queria , e ele talvez não fosse capaz de atender a essas expectativas. Se viu com um corpo mais velho, menos vigoroso do que imaginava. João nunca foi o rei do sexo. Com a esposa, tinham isso como uma conduta muito mais programada do que baseada nos desejos dos dois. As experiências dele foram poucas e desde a viuvez, não tinha investido nisso. E agora, ele não tinha isso para oferecer.
Seguiu os contatos e a cada nova mulher que conhecia, percebia que ele tinha um pouquinho do que elas queriam, mas não o bastante para elas ficarem. E mais, elas não pediam nada a ele, elas mesmas tinham o que queriam. O jogo de João inverteu, as interesseiras não tinham interesse nele.
Entrou num estado depressivo, não porque realmente estava adoentado, mas porque estava se vendo como nunca viu, um pobre coitado, sofrendo com o desdém das mulheres. Como elas podiam ser tão cruéis? Os filhos de João ficaram mais próximos.  Vinham com esposa e netos para lhe fazer companhia no domingo. João com aquela cara de sofredor. Todos achavam que era finalmente ele sentindo a morte de Clotilde. Ele realmente dizia que sentia falta dela, mas não sofria pela morte, mas porque não tinha ninguém que o amava sem interesse. Lembrava-se frequentemente da mãe, que preferia os irmãos a ele. Clotilde foi mais devota a ele do que a sua própria mãe. Ela sim, era uma desinteressada, não pedia nada em troca, só queria estar ali.
João não aguentava mais filhos e netos em casa, precisava mudar isso, queria que uma mulher se interessasse por ele. Começou a conversar com os amigos que estavam sempre acompanhados, especialmente os viúvos que tinham se casado de novo. Todos diziam o mesmo: “mostre interesse nela e compre o interesse dela”.
Ele não sabia bem como fazer, mas tentou.  Convidou uma para jantar, mas escolheu um restaurante mais barato, vai que o investimento é maior do que o lucro. Ela não gostou, reclamou e nem falou com ele depois. Resolveu na próxima, começar com cinema, pegar na mão. Deu certo à primeira vista, mas João foi muito afoito e logo quis partir para a cama e ela não gostou. Ele realmente tinha azar com as mulheres. Sorte, só Clotilde.
Investiu em mulheres mais novas, foi em pequenas excursões da igreja, passou a frequentar o clube, tudo em busca da nova Clotilde e nada. João não aproveitava essas experiências, apenas estava atrás de uma mulher para o amar incondicionalmente.
O filho mais velho de João, Luis Roberto, um dia teve uma conversa séria com o pai. Disse que ele estava mal das finanças, que os quatro filhos davam muita despesa, que a mulher não o agüentava mais e que tinha ido embora de casa. Ele precisava ir morar com o pai e ainda precisava do pai para ajudar com as crianças. João, a contragosto, aceitou, especialmente quando o filho lançou a frase matadora: “mamãe adoraria poder viver e cuidar dos netos, infelizmente ela morreu cedo demais para isso.” Chantagem feita, mudança realizada, João passava os dias olhando crianças brincarem e gritarem em casa. A empregada, Dora Rosa, vinha diariamente e cuidava dele também. Ele tirava umas casquinhas dela quando as crianças estavam na escola, mas nada mais do que uma mão boba e um cheiro no pescoço. João achou a vida que queria, ali, ninguém lhe pedia nada.

Simone de Paula – 25/08/2017

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Escape

"Sinto muito, eu não posso te indicar a saída."
De Dédalo escapando do próprio Labirinto à Ofélia do filme Labirinto do Fauno, as histórias estão repletas de personagens que encontram suas saídas. Aprisionados à realidade, engessada por pequenas carências ou sucessos mínimos, diante da morte, eles inventam um novo modo de agir em si, sendo levemente "sartreana".
Eu também achei minhas saídas. Não que tenham surgido assim, na minha frente, como portais mágicos de soluções fáceis. Hoje as reconheço como ofertas de movimento e desvio. Mas nas ocasiões, pareciam apenas um modo de distração. 
Tenho ouvido muitas vezes nesses tempos, ‘diversão não é distração. 'Não se distraia demais com aquilo que te diverte.’ Será? Concordo com o poeta, "toda paixão me diverte". Alguém deve ter dito, " me distraio nos teus olhos". Nos olhos não me distraio, mas na tua voz sim.
Olha lá, até concentrada no tema, tentando escrever das saídas, escapo aqui e ali, dispersando o foco e abrindo janelas de prazer nos devaneios.
Bem-aventuradas as crianças que brincam. 
Sim, primeira saída. O universo infantil é o campo da brincadeira. Lúdico e circunscrito pelo entendimento dos limites do possível. Criança quando brinca, vive de verdade a fantasia. Lá ela tem tudo que viu na realidade e imaginou a partir do mundo simbólico e onírico. Entre sonho e realidade, fantasia e invenção, eu criança determinava lugares e personagens, criando as cenas que seriam vividas de forma muito mais iludida na vida adulta, como se fossem verdades. Me iludo hoje. Quem não?
A brincadeira continuava e a leitura apareceu. Incentivada na família, porque se fazia isso para entreter crianças e por habito de adultos. Tudo simples como histórias contadas e lidas. E gibis, e claro. Daí foi um passo para conhecer uma pequena biblioteca de escola. O ambiente místico, silencioso, convidando ao encontro com o mais íntimo daqueles que leem e escrevem. A entrada no mundo das letras foi mais uma saída diante dos impasses e limites da penosa vivência encarnada.
As coisas não se sucediam, substituindo-se umas pelas outras. Se somavam. 
Chegou a música, imponente, soberana, única. Ainda hoje é o ponto mais sensível de todos, caso de vida ou morte. Saída triunfal, diversificada, garantindo o mundo solitário e inteiro no qual eu vivia nas minhas brincadeiras. Bem, isso não é bem verdade nas brincadeiras. Bem de vez em quando, elas podiam ser solitárias, mas com três irmãos, muitos primos, amigos, vizinhos, brincar só era raridade. Acho que por isso a música foi inicialmente compartilhada e hoje é meu escape mais delicioso e solitário. Eu, meu fone, e todo mundo ao redor.
Sempre parece que está bom, mas a alma insiste em se perturbar. O coração dói, a cabeça discorda, o corpo não adequa e lá vamos nós, encontrar mais uma forma de deslizar. O cinema desde sempre foi entretenimento da minha geração e foi meu grande caso de amor na faculdade. Até hoje nunca estraguei esse amor vivendo o relacionamento. Fazer cinema me levaria a odiá-lo, vendo todos os defeitos que quando se convive a gente enxerga. E lá, naquele mesmo tempo e espaço de paixões, a Arte colou na minha e não nos soltamos mais. 
Troquei as brincadeiras inventivas, por rotinas tediosas. Adulto acredita que é adulto e brinca mal. Antes mesmo de Saturno me agarrar, eu já sabia que eu teria que sair de mais um labirinto em que eu tinha me metido. Demorou, mas achei na Astrologia um nome. O tal Saturno me prendia, construía paredes. Arranjei outro - aqui posso até escolher, mas fico com a dupla Marte / Plutão - pra derrubar tudo. Fiz. Mas essa saída não foi completa, porque entre eu e os astros, eu e os Outros, eu continuava em mim. Sem as respostas para aquilo que em mim eu não entendia como eu. O encontro fulminante e inevitável com a psicanálise aconteceu. 
As paredes sobem de tempos em tempos, redefinem os caminhos limitadores do mundo, exigem de mim novos escapes. Variações em cima disso tudo, no gosto marcado e decidido.  
Incrivelmente eu não escrevi nada disso ouvindo música, mas deixei o silêncio, acompanhado dos sons do mundo, guiarem minhas ideias.

Simone de Paula - 16/8/2017


artista Maia Fiore

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Road trip

Minha infância foi recheada de viagens de carro. Meu pai adorava carros, estradas, dirigir. E minha mãe amava ver lugares, gente, e meu pai, é claro. Durante o namoro, sair era impossível, porque meu avô fazia marcação cerrada com ela. Mas eles inauguraram um modo de viver logo na lua-de-mel. Não sei como planejaram, mas pegaram o fusquinha, as malas e rumaram para o Uruguay. As fotos são lindas, poucas pois na época, meio dos anos 60, filme fotográfico e revelação custavam caro. Outra paixão do meu pai, a fotografia. Ele gostava de ser modelo quando jovem, mas se tornou 'fotógrafo' quando passou a ver mais coisas do que ele mesmo. Minha mãe conta algumas passagens desta primeira viagem, dos hotéis que ficaram no meio do caminho, de uma ou outra aventura. Mas se bem a conheço, e se me pareço com ela, o estado de paixão por tudo aquilo era maior e não há como dizer disso. 
Os filhos foram nascendo e o casal continuou viajando. O tamanho do carro aumentava, não apenas para acomodar todo mundo, mas por gosto mesmo. Meu pai adorava carro grande. Na infância, por muitos anos, íamos para o clube semanalmente, não um clube na cidade, mas um clube de campo. Era estrada para ir e estrada para voltar. A ida, era com música, escolhida por ele. A volta era a narração dos jogos de futebol. Para mim, a ida era com música, conversa e os olhos na janela, na paisagem, tanto vendo o que tinha de interessante ali, quanto avaliando quanto faltava para chegar. Na volta, era o momento do cochilo, exausta pelo dia cheio de diversão. 
Nessa mesma época, as férias eram em dois lugares, ora em Santos, no nosso apartamento, ora em Araras, na casa dos meus tios. Estradas e mais estradas. De lá pra cá e de cá pra lá. Tanto no litoral, como no interior, circular pelas cidades vizinhas era comum. 
Muita coisa rolou de lá pra cá. Meus pais se separaram, nós crescemos, meu pai morreu. Minha mãe seguiu o gosto marcado por ele e até hoje, a mala dela está sempre pronta. Se tiver o convite, o aceite é garantido. E nós, eu e meus irmãos, também fomos marcados por isso. Talvez uns mais do que outros, mas a disposição e a não complicação para partir com ou sem destino, está dentro de nós. 
Nas viagens que tenho feito por aí, tem sempre um deslocamento de carro ou de ônibus que me traz um sentimento bom, nostálgico, de prazer. Afinal, não eram viagens de compromisso de trabalho ou estudo, sempre era para algum tipo de lazer. 
Há dois anos fiz uma viagem de caro curtinha, com a minha irmã, pelo interior da França. Foi a certeza de que eu quero mais. Mais dias, mais quilômetros, mais cidades. Sair sem muito plano garante experimentar o percurso, descobrir o que tem no meio do caminho.
Chego aqui e percebo que escolhi falar do meu pai, das marcas dele em mim, em nós. Mais do que o que ele gostava ou fazia, é o que nós gostamos e fazemos. 
A minha road trip de "lua-de-mel" ainda esta pendente. Não precisa ser por esse motivo, mas que seja nesses moldes: com destino, sem definições. Let's go!

Simone de Paula - 11/8/2017


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Passeio a dois.

Eu te disse vai!
Você diz eu fico.

Então me abrace, me conte.
Não há o que dizer, não há nada.

Quem somos juntos?
O que calo em mim e você em você.

E o silêncio pode se sustentar?
Não sei. Não.

Vamos?
Onde?

Atravessar a porta.

Maria Laura, São Paulo.


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Empilhadeira

Pilhas de pratos
Na pia da cozinha
Revelam de dia
A noite bem comida
Pilhas de papéis
Na escrivaninha
Denotam contas e dívidas
Que assumia
Pilhas de livros
Ao lado da cama
Inacabados, marcados
Esperando seu fim
Pilhas de roupa limpa
Na tábua de passar
Amassadas, desleixadas
Só lembradas na hora de usar
Na cachoeira, num dia de sol
Tentou empilhar pedras
Impossível, rolavam indolentes
Não se deixavam parar.
Simone de Paula – 03/08/2017


          artista: Nara Isoda
Conto inspirado na arte e na entrevista de Nara Isoda. Eu também adoro pedras empilhadas.

Mareia

Você fazia silêncio, enquanto eu imaginava.

Meus barcos navegavam longe, turbulentos. Eram dois.
Um deles por vezes conseguia chegar até o mar calmo, sol na cabeça, suada.
Outro não tinha remo que segurasse, se jogava sem pensar por dentro da água brava.

E onde estava o porto?
Que porto?
Ali não tem nada.
Vai por onde?

Pela onda.

Maria Laura, agosto, São Paulo.


sexta-feira, 28 de julho de 2017

Perspectivas

Quando criança, Isabela ouvia que o céu era o limite. Nascida em uma família de pessoas altas, acostumou-se a olhar para cima. A dimensão do que fica suspenso, elevado, é sempre inteira, completa. O avô lhe mostrava o céu, as nuvens e as estrelas. Nas noites de lua visível, observavam o astro e suas fases distintas. Na lua crescente se pode ver o contorno da lua toda. Com o passar dos anos, o contato com a natureza se tornou comum, banal, a exigência passou a ser a dos livros. A mãe dessa vez é quem encabeçava a jornada rumo ao céu. Não o céu de estrelas, mas o das ideias, dos livros, da sabedoria. Na casa da tia tinha uma estante grande, repleta de livros. Na adolescência, nos almoços de domingo, era por ali que Isabela ficava, sempre a pensar e imaginar o universo criado pelo autor. Aquela cabeça divagava muito.
Isabela cresceu e se tornou uma moça bastante inteligente e culta. Alta, seguia o porte familiar. Mas ela carregava dois incômodos, que não revelava a ninguém: o nariz exageradamente empinado e a nuca encolhida. Não tinha o pescoço elegante que via em algumas pessoas quando observava amigos ou mesmo transeuntes. Era comum levar a mão à nuca para massagear a região que lhe causava dor física e emocional. Não sabia que dor emocional poderia ser essa, mas sentia dor no peito quando tocava  sua nuca. 
Um dia seu amigo Jorge, parceiro de conversas desde a infância, fez inocentemente uma massagem nos seus ombros, por conta de um dia exaustivo de caminhada rumo à Pedra da Baleia. Eles saiam para fazer trilhas, escaladas, subir montanhas para ver lá de cima a imensidão do céu e da terra. Tudo gigante, limitado apenas pelo que os olhos podem ver. Ao toque das mãos dele, ela pulou de susto e ele também. Ela porque aquelas mãos lhe deram um choque estranho, uma espécie de conexão. E ele porque sentiu o corpo mais travado que já tinha tocado na vida. Se olharam e a conversa foi inevitável. Sim, se gostavam, mas esse não era o principal tema daquela conversa, mas a tensão que Isabela carregava em si. Tinham intimidade e isso permitiu que Jorge oferecesse a ela algumas sessões de massagem informal. Foram para casa dele, ela deitou de bruços e assim começou. Isabela mudou sua perspectiva de mundo. Agora os olhos iam para o chão. Observava todos os fragmentos dos pisos. Tacos de madeira recortados formavam bonitos desenhos na sala da casa de Jorge. Caquinhos de lajotas coloridos eram o piso do quintal da casa da avó dele. Notou seu banheiro, com o piso azulejjado, e rejunte colorido que nunca percebera antes. Um mundo novo apareceu diante dos seus olhos. abaixou o nariz e esticou a nuca. Esse mundo era de pedaços. Pedaços que colados, unidos, se transformam em pequenos todos. No chão também viu a formiga como via uma estrela na infância, mas a formiga ela podia tocar. Ali, diante daquele espaço, dos limites de cômodos e áreas, a superfície amparava Isabela muito mais do que a oprimia. As dimensões eram mais humanas. As massagens e o sentido do chão deram a Isabela a compreensão de que olhar para cima demais a restringia e deformava. Seu pescoço alongado permitiu mais segurança ao caminhar. Os olhos focaram em coisas possíveis de ser experimentadas. No mundo real, ela podia pegar aquilo que estava ali, presente.  

Simone de Paula - 28/07/2017

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Só hoje

Minha hora preferida do dia é o amanhecer. 
Nos finais de semana geralmente acordo sem obrigações ou horários marcados. É justamente nesses dias que desperto cedinho. Realmente estou descansada, satisfeita de dormir. Levanto, tomo minha água, faço um café fresco e sento junto à janela que me mostra o sol nascendo no leste. Primeiro os raios, sem revelar ainda como será o dia. Depois o brilho se intensifica e me avisa se será um dia de sol ou nublado. Os dias de chuva trazem um clima diferente ao céu, mas possibilitam a mesma visão encantadora. O silêncio da cidade vai dando lugar ao barulho de carros e pessoas, na medida que a claridade se intensifica. A casa também está quieta, todos ainda dormem. Se alguém, assim como eu, está de pé, certamente faz as coisas de forma suave, lenta, tranquila, justamente para não acordar ninguém. Não é preciso falar nem ouvir. O pensamento segue rumos mais variados, imprevistos, inspiradores. Essa uma hora passa rápido, é preciso aproveita-la.

Simone de Paula - 17/6/2017

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Presente

Ele está imóvel
Ela o acolhe
Ergue seus braços
Abraça-o
Há uma relação 
Um ampara o outro
Um é o outro
Infinito, insólito, contínuo, breve

Sei de mim quando sei de ti
No eterno laço
Recriando

Novo
Não via
Agora sei


quinta-feira, 13 de julho de 2017

As Lolitas

As risadas cortam o som forte das ondas batendo no casco do barco e a música suave do vento nos meus ouvidos. Meus olhos procuram crianças, mas encontram as meninas crescidas. Duas Lolitas brincam, ora meninas, ora mulheres. Estão apaixonadas, diz os olhares cúmplices que trocam. São melhores amigas desde pequenas, mostram os pais que as acompanham. Eles estão lá com elas, mas elas estão sozinhas, livres, conectadas apenas uma a outra. Desejam.
Olho em volta e não sou apenas eu que observo. O rapaz ao meu lado também sabe que ali tem mão de Afrodite, tem desejo, sedução, união. Ele sabe porque vive o mesmo com sua menina. Eu sei porque vivo o mesmo com meu menino.
O momento é de tranquilidade. Toda a excitação do passeio e da exuberância da natureza, já passou. Ê tempo de contemplar. Elas cessam, se deixam adormecer, lado a lado, encostadas, seguras, tendo tido como último olhar, antes da pálpebra se fechar, aquela que atende ao mais encantados dos sentimentos.

Simone de Paula – 14/07/2017


A mesa redonda de girar

Rafa contou
dos múltiplos braços de afeto,
eu me lembrei de tanta coisa com ela

depois sonhei amores antigos,
uma vertigem

o que as amigas cantam
está em sintonia

afinada com a passagem
e os rituais de vôo

de terra que não conheço
as histórias da Caru
da carochinha

um brinde

algo novo está começando

Maria Laura, julho

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Serifos

Soprava o vento úmido
A gaivota insistia em enfrentar sua força
O mar cedia fácil, agitado, molhando quem se aproximasse
As montanhas recortavam o céu e emolduravam a cena toda
Ali, a vida é preguiçosa. Nas casinhas brancas quero o anonimato com você.

Simone de Paula - 07/07/2017


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Ciclo

Ela 

- Você viu aquele vídeo que te mandei?
- Sobre o filme que a gente gosta?
- Esse
- Não
- Não?
- Eu até queria, mas...
- Boa noite

Já sei, nunca mais mando vídeo nenhum, com esse descaso não dá, dessa vez não fico calada não, cansada disso,  toda vez...que frieza, cansada, cansada.

Ele

- Bom dia, tá bem humorada hoje?

- Eu? Meu humor é ótimo, contagiante! O que não gosto é de conversar com a parede
- Haha. Eu estava acordado no meio da madrugada revendo aquele grande clássico com lágrimas nos olhos. A mensagem no meio dessa hora não coube. Dormi e acordei tão inspirado que fui escrever, fazer coisas. Eu até que gosto quando fica brava achando que a medida de gostar de você tem a ver com a resposta imediata que quer. Você me faz rir. Não há nada mais prioritário na minha vida do que isso.

Impressionante. Ele me pegou de novo! Danado.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

De uma queda foi ao chão

Gosto tanto desse verso da canção popular chamada ‘Terezinha de Jesus’, que resolvi contar essa breve história das minhas férias  de verão.
Tinha acabado de começar o inverno no Brasil e eu escapei do frio escolhendo passar férias na Europa
 Sim, eu sei, parece esnobe, mas não é. Me interesso pelo mundo, pelas pessoas, quero sabet do que está além do meu quintal. Não sou religiosa e nem gosto de futebol, não crio inimigos nos diferentes. Tenho planetas na casa 9 do meu mapa natal, planetas importantes, dispositor do meu sol e regentes do Ascendente e Meio do Céu, só vivo na minha cidade de origem pela minha Lua de casa 4. Mas voltando...
A viagem estava sendo deliciosa: lugares, coisas; pessoas...
Desde o primeiro hotel, em Zagreb, na Croácia, lugar que sonhei conhecer e nem sabia que aconteceria tão rápido, encontrei a piscina do hotel, interna, aquecida, pronta para nadar.
Em Split a rotina continuou e ainda tinha saunas. Diversão do fim da tarde antes do jantar.
Em Hvar, cheguei ao paraíso. Encontrei a dupla perfeita mar-piscina pronta para me receber.
Fiz tudo como de costume: maiô, cabelo preso, chinelos, toalha. Mas, à beira-mar, nem sempre a natureza pode ser controlada. O limo ensaboou a pedra, as havaianas não seguraram o liso do chão e minha queda provocou a dor e o pavor na palma da minha mão. Tremor, sangue, preocupação. A toalha molhada denunciava o sangue que escorria da ponta dos dedos. Sentei,  senti, suspirei, me decepcionei.
Incerta sobre uma fratura, fui ao hospital e tive duas gratas surpresas: 3 plantonistas croatas, lindos evidentemente, e nada quebrado.
Antes de tudo isso eu tinha acordado com um pouco de dor no ombro. No caminho da piscina, minha panturrilha anunciou uma contratura. Finalizei com o tombo bobo que me deixou com uma mão enfaixada, muito inchaço, dor e incômodo.
Os dias passam, tudo vai voltando ao normal.

Simone de Paula – 30/6/2017



quinta-feira, 29 de junho de 2017

Navegável

Estava na mesa de jantar
falei do monstro

Ele não avisa nada, chega e sempre é aquele velho conhecido
se renovando com a ingenuidade dos que o invocam, acho
Você já sabia e ainda crê imensamente que tem o poder de evitar
Tola

Proponha uma conversa
que tanto me exige que eu não vejo?
Por que se repete?
Tanto tanto

Foi quando a Mel lembrou do Guimarães Rosa
“Todo abismo é navegável a barquinhos de papel”


Hora de dormir

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O redemoinho

O redemoinho
A situação toda foi do pavor ao alívio e tudo durou poucos segundos.
O sofá era completamente confortável. E eu deitei. Mas minha ansiedade não me permitiu ficar assim. Sentei e falei em uma velocidade enorme. As palavras saiam e eu as ouvia, sem conseguir segurá-las. A vertigem foi tomando meu corpo, me derretendo. Fui desfalecendo. Eu via a minha imagem, meu rosto, se desmanchando. A boca escorrendo e as palavras não se articulavam mais. Sentia medo, pavor. Tentava desesperadamente falar mais para conter aquilo que acontecia sem nenhum tipo de controle. Eu estava prestes a me entregar quando senti seu corpo atrás de mim. As mãos tamparam as minhas orelhas, fecharam os meus ouvidos. Num único gesto, a proteção e o abraço acolhedor.  Você me segurou junto a você. Não caí. Seu corpo me serviu de amparo. Apoio..
Mais do que parar de falar, você me ajudou a parar de ouvir. O abraço veio pelas minhas costas, invertido, envolvendo a cabeça através dos ouvidos, retendo o redemoinho turbilhonado dos meus pensamentos torturantes.
Dali não quis sair. Só relaxar e dormir. Encostei em você, suspirei e dormi.

Simone de Paula – 21/6/2017

quinta-feira, 22 de junho de 2017

As Horas

Quando sinto demais a sua falta,
percebo que ando em falta comigo.

É preciso escutar o abandono.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Degelo

"Há quanto tempo você não faz uma loucura?"
Leu essa frase no anúncio de vodka no ponto de ônibus indo para o trabalho. Geralmente ia de carro, pois gostava de conforto. Era pouco preocupado com o trânsito carregado, inclusive reclamava disso todas as manhãs, mas não se sentia parte do problema, tinha direito porque trabalhava muito. Usava a desculpa de muitos.
Já estava bravo o bastante por ter que deixar o carro na oficina mecânica, ainda tinha que dividir o ônibus cheio com mais um monte de gente carregada de sacolas. Bufava muito. Mas não deixava de pensar naquela frase. Se sentia meio amolecido, tendo que sustentar uma raiva que carregava há muito tempo e parecia ter se descolado um pouco dele. Detestava vodka, não se tratava disso, mas justamente da loucura que realmente não fazia há muito tempo. Tinha acabado de tomar consciência que se tornou o que dizia jamais ser, um trabalhador burocrata que não faz nada de divertido na vida, só o trajeto casa-trabalho-casa e xinga o chefe dez vezes por dia em voz baixa. 
Chegando no trabalho começou a fazer uma linha do tempo imaginária. Na cronologia, tinham buracos, não lembrava de muita coisa. Percebia lapsos de memória em relação a amigos, professores, namoradinhas, se assustou. Pegou um papel e foi escrevendo retroativamente, ano a ano, queria recuperar as lembranças e principalmente reviver as loucuras que sabia já ter feito. Os seus vinte anos foram maravilhosos, cheios de experiências e aventuras. Vivia duro, em todos os sentidos. Não recusava nada. Lembrou de um amigo com quem saia todo final de semana e agora estava tão distante, casado, com filhos, careca e barrigudo. Mal se falavam, nenhum assunto combinava e a nostalgia dos encontros já não colava mais. O pensamento no amigo puxou uma namoradinha, que vivia dizendo que tinha planos doidos para a vida dela. Teve certeza que poderia reencontra-la, ver se ela tinha seguido os planos. Naquela época ele queria muitas coisas, mas não tinha grana para fazer. Hoje tem a grana e parece não querer mais nada. Essa era a grande questão, lembrar dos sonhos antigos e realiza-los agora. Mas eram coisas tão bobas. Na verdade, eram desejos de um rapaz de vinte anos. Passou o dia meio nostálgico, tristonho, trabalhando em câmera lenta. No ônibus, voltando pra casa, olhava os anúncios para tentar rever o cartaz da vodka. Procurando, achou outro cartaz, dessa vez era um urso polar, num comercial de canal da tv a cabo. Pensou que sempre quis conhecer neve e no Brasil ele jamais teria isso. Naquele momento, o estômago gelou e o coração incendiou, viu o cartaz da vodka na frente dele e decidiu, ia conhecer o bar de gelo que sabia existir na Suécia. Chegou em casa, pesquisou, ia gastar a grana que tinha e que não tinha, mas era uma questão de fazer uma loucura.
No dia seguinte, chegou para o chefe e pediu férias, disse que precisaria sair já na próxima semana. O chefe negou, e ele sorriu. Comprou a passagem, podia ser demitido, era só uma questão de loucura, melhor que não fosse fácil. 
O destino estava se cumprindo direitinho, pois tudo dava errado nos preparativos, pedindo que ele se empenhasse muito, era pra ser coisa de maluco. Vôos com várias escalas para chegar até lá, hospedagem na casa de desconhecidos, pouca grana pra comida. Descobriu que além do bar, teria um festival com bandas que jamais viriam tocar aqui, na terra dele. Comprou ingressos, ia para o festival e passaria dias e noites em claro. Estava quase tudo pronto, mas essa trip tinha que ter companhia, era o resultado de tantos papos nas noites loucas que ele já tinha vivido. Ligou pro amigo, aquele que agora só pensava na família. Sabia que podia levar um não, e que junto viria um tanto de decepção. E foi assim que aconteceu. Pensou na doida, tentou encontra-la nas redes sociais, só assim daria. Nem lembrava sobrenome, mas foi procurando pelos antigos amigos das baladas. Chegou, achou, sentiu de novo o gelo no estômago e o quente no coração. Fuçou no perfil dela, separada, sem filhos, morando na Argentina. Mandou mensagem, quem sabe ela toparia. Ela respondeu, ela riu muito, ela topou. Em dois dias ela estava no Brasil. Se encontraram no aeroporto, sem muito sentimentalismo, parecia que tinham se visto o mês passado. Eram próximos, viveram muito perto na juventude, quando as máscaras são menos pesadas e a intimidade mais fácil. Estavam embarcando quando ele recebeu uma ligação do chefe. Atende, dizendo que está no aeroporto e viajando de ferias. Do outro lado, a gritaria só fez com que ele sentisse mais ainda o prazer da loucura. Desligou, pegou na mão dela, sorriam e entraram na sala de embarque.

Simone de Paula - 16/6/2017


sexta-feira, 9 de junho de 2017

O amor acontece

Se for para o amor acontecer, que seja logo de cara.
Ouvi recentemente a história de uma mulher que desde nova tinha decidido não se meter com as coisas do amor. 
Alguns pensariam que ela desejava entrar para um convento. Mas não, porque nesse caso, teria amor, só que destinado a um deus.
Ela também não quis cuidar dos pais mais velhos ou filhos dos outros, foi viver sozinha, longe dos familiares. Estava decidida a viver uma vida simples, sem maiores afetações emocionais. 
Não era uma questão de ter controle sobre tudo, lidava bem com imprevistos. Era comum colocar o leite para ferver e ir regar algumas plantas e quando ouvia o chiado do líquido no fogão e o cheiro de queimado, saia correndo para apagar o fogo. Se irritava levemente por ter que limpar a sujeira, mas isso não a abalava. 
Também não era limitada ao seu pequeno mundo, fazendo compras nos mesmos lugares evitando novas pessoas na vida. Pelo contrário, quanto mais estranhos, menos contato, menos afetividade envolvida. Vivia no mundo das coisas e não das pessoas. Não era amarga, só não queria vínculos.
Os sobrinhos geralmente a achavam solitária e queriam que ela tivesse algum animal de estimação. Para ela nem cachorro, nem gato, nem peixe, nem pássaro. Não queria companhia e achava absurdo  o bicho ficar submetido e preso pela carência dos homens. Ela não se sentia carente.
Não era chata, mas vivia apenas para si. A vida já exige bastante atenção e trabalho, simplesmente para se manter vivo, não precisa mais do que isso. As donas de casa sabem bem, pois da hora que acordam até a hora de ir dormir, passam o dia todo fazendo coisas que deverão ser feitas novamente no dia seguinte. Comida, limpeza, arrumação, e tudo pede repetição.
Ela também não era uma melancólica que esperava a morte, pelo contrário, vivia. Era comum comentar que mulheres que não se casavam e viviam sozinhas, tinham maior longevidade do que aquelas que se dispunham a sofrer de amores e maternidade.  
Gostava muito de jardinagem, plantas, flores, uma pequena horta. Escolheu onde morar justamente para poder se dedicar à terra e tirar dela os prazeres dos sentidos. Sua casa sempre estava enfeitada com as flores do seu jardim e a refeição tinha algo que tinha sido plantado e colhido por ela. Admirava também os insetos. Abelhas, caracóis, formigas. Conhecia os que eram amigos das plantas e os que poderiam destruí-las. Sabia também como exterminar os inimigos invasores sem usar veneno para si mesma e nem para a flora exuberante que tinha criado. 
Era véspera de natal e a família se reuniria na casa dela para as comemorações. Ela gostava de recebê-los em ocasiões especiais. Estava concentrada no jardim, escolhendo o que ia usar para o vaso do centro da mesa da ceia, quando ouviu palmas no portão. Era um jovem rapaz que sorria e tinha um saco de algodão nas mãos. Ela não era desconfiada e nem medrosa e se aproximou para saber o que ele queria. Ele se apresentou. Tinha mudado recentemente, vindo do interior onde tinha sido criado numa chácara. Comentou que passava diariamente pela casa dela e ficava namorando seu jardim, pois sentia falta da terra e das plantas, porque onde morava hoje só podia ter vasos. No saquinho, ele trazia algumas sementes da sua planta preferida e queria saber se poderia plantar ali. Como se tratava de uma espécie de raiz profunda, seria impossível fazê-lo em um vaso. Ela ficou surpresa e animada. Não tinha imaginado compartilhar seu jardim, mas pareceu uma boa ideia. Enquanto ele plantava, ela observava as mãos dele, prestava atenção aos gestos e as explicações que ele dava sobre aquele tipo de semente e planta. Tudo foi muito rápido e ela se pegou completamente arrebatada pelo tom suave da voz daquele jovem. Quando se despediram, ela sentiu falta de continuar envolvida com o sotaque simples do interior e o conhecimento profundo das coisas da terra. Foi fisgada e nem era um peixe.
No dia seguinte ele veio e ela o convidou para almoçar com todos, afinal, era dia de natal e ele estava longe de casa. Ele aceitou e nunca mais saiu de lá. Ela sabia que não era apenas o amor por ele, mas o amor que compartilhavam que os unia. O desejo apareceu, evidentemente. Eles se relacionara além da fronteira da amizade. Recuaram quando notaram que aquilo poderia se transformar numa batalha de ciúmes e disputa e aceitaram o acordo de paz. O limite era o jardim. Ele propôs aumentarem o espaço disponível para as plantações, pois queria fazer daquilo seu ganha-pão. Foi perfeito. 
Anos se passaram até que um dia ele se despediu, voltaria para o interior, não pertencia à cidade.
Ela imaginava que isso poderia acontecer. Não se importou, as coisas devem mudar de tempos em tempos. Ela tinha entendido porque a tal planta preferida era especial para ele e cuidava dela no seu jardim como forma de agradecimento a ele, por ter provocado nela o amor.

Simone de Paula - 09/06/2017