sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Me tiro daqui

Eu só fiquei doente pra fugir do que eu não queria fazer. Descobri isso hoje, olhando pela janela e sentindo um sufocamento desconcertante. 
Aonde chego, olho em busca de janelas, mesmo que eu tenha acabado de chegar da rua, atravessado a porta de entrada. É como um escape para os olhos, o refúgio para respirar. Não respiro só pelas narinas ou pela pele, mas respiro pelos olhos. Minha mente precisa de ar, muito ar. E esse ar não vem apenas do próprio elemento, da brisa ou do vento, mas ele chega pelas imagens, pelas ideias que as imagens entregam. Mas voltando, olhei pela minha janela fechada, senti o sufocamento e pensei: preciso sair daqui. Eu ia sair, já tinha um dia de compromissos, mas naquele momento, olhando três pessoas pegando o ônibus na esquina, o vento soprando nas árvores e balançando os vidros, tudo isso me parecia uma prisão, porque eu estava aqui dentro, livre, solta, mas ainda aqui dentro. 
Eu já sabia que um recurso para evitar o que eu não queria fazer era adoecer. Mas eu não fui uma pessoa doente, pelo contrário. Até inventei umas quatro caxumbas para não participar de festa junina ou desfile de sete de setembro. Cada situação desagradável dessas me pedia um recurso. Confesso, eu tinha poucos recursos de recusa, mas vez ou outra, a dor de garganta se convertia em caxumba. Não era só doença inventada, parecia de verdade porque doía. 
Eu também tive a dor de ouvido que era de verdade verdadeira e me impedia de ir para o mar e para a piscina, minhas paixões eternas. 
Isso me ensinou que inventar doença é uma coisa que a gente deve usar com parcimônia, porque quando é de verdade, te impede de fazer o que quer muito. Logo, funciona como o avesso do direito. Além do que, ainda podia ser um castigo divino por ter mentido. Mas sabe que esse deus aí, que castiga, nunca colou muito, porque quem castiga é gente viva, encarnada. Não tenho medo nem de fantasma, nem de assombração, e de deus, menos ainda. 
Na infância, penso agora, minhas dores se concentravam na garganta e ouvido, me impedindo de engolir, de ouvir. Um pouco mais velha, as amigdalites chegaram, e além de engolir, me impediam também de falar. Depois, veio algo mais enigmático, o lado de trás, as costas, que me limitavam o andar. Olha que coisa, eu querendo fugir e meu corpo me impedindo de ir, fazendo ficar. 
Resolvi muitos problemas, mas novos insistem em inaugurar um desconhecido em mim. Eu digo sempre pro meu analista que eu devia ser melhor nessas estratégias, porque o que era para ser uma boa mentira com ganhos satisfatórios, se torna verdade de um jeito meio tosco e me sobra problemas para resolver. Vou sair daqui antes que meu tornozelo comece a doer.


Simone de Paula - 05/11/2017

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Panela e fogo

Em fogo baixo, cozinhe o quanto precisar
Baixo, baixo
Lento

O tempo de um processo
De uma mistura

Fina.

Maria Laura

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Bate-rebate

Me conta
Não posso falar do que você viveu, mas apenas das experiências que eu presenciei e o que elas significaram em mim.
Te pergunto muitas coisas pra dar voz aquilo de você que ninguém quis ouvir. Mas sua personalidade, eternamente ameaçada, entende minha curiosidade por julgamento. Você me toma por aquilo que não sou.
Durante o dia você passeia pela minha cabeça esboçando meu espirito vivo e maníaco por um mundo novo. À noite, meu desejo navega pelo espaço sombrio e raivoso que me habita, provocado pelo seu silêncio. 
Quero tudo que possa sair da sua boca, forjado pela dor da sua solidão e manifestado pelo som das suas palavras. Os fluidos, esses reais, são suportados com a maior devoção, porque eles também te pertencem. Coloca esse oco pra fora, porque ele já aparece, desde que você se sinta olhado.
Não é o que você faz, é o efeito que você provoca. Não é o que intento, é o que brota de mim. Isso é meu e disponho da forma que quiser. Você me encontra, me mostra, me revela, me descobre. Eu estava aqui e nem percebia. Você me viu onde nem eu sabia que existia, ou sabia, mas duvidava, porque nos lábios e nos olhos dos outros isso não aparecia. 


Simone de Paula - 03/11/2017

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Passarinha

Não está nada claro
entramos ainda mais

agora recheados das descobertas
cavamos um pequeno buraco, oco, ovo

dele deverá sair algo que voa e pousa
há uma semente em seu bico
não foi plantada por falta de encontrar o terreno fértil dessa aridez

nem sabia seco
pensava na fantasia de brotos
pensava planta, era neve

distante
frio
inteiro


me falta.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

As minhas baratas

As impressões estão muito mais perto das alucinações do que da realidade. 
Ontem mesmo eu estava jantando, como acontece todas as noites. Tudo era o mais ordinário possível. Eu no meu lado da mesa e meu marido no dele. A comida de sempre, a conversa sobre alguma amenidade. Tenho o hábito de cruzar as pernas, não importa onde me sento, e na mesa da cozinha acontece o mesmo. No entanto, ontem à  noite, na troca da cruzada de pernas senti um peso estranho no meu vestido, alguma coisa caiu no meu colo. Me assustei. Mas o barulho que ouvi, o peso e a forma que percebi, tudo me levava à certeza do que era, mas ao mesmo tempo, aquilo, ali, era impossível. Como uma barata estava no meu colo? Na minha cozinha? Caindo de onde? Debaixo da mesa? Da dobra da toalha?
Me movimentei com calma, não queria fazer alarde, aquela era a minha barata, em mim, no meu colo. Queria lidar com isso antes do escândalo que meu companheiro de cena faria. 
Descruzei a perna, olhei no colo, olhei no chão, sacudi o vestido, mexi na barra da toalha, tudo com muita sutileza, queria ver a barata, mas ela tinha sumido. Será que ela esteve ali? Ela estava ali! Mas não existiu na materialidade sentida por mim. Segui o jantar, mas queria muito achar o que vi e vivi e que tinha escapado das minhas mãos antes de tocá-la.
Reflito sobre isso na noite mal dormida. O dia de Finados tinha acabado de passar e não pensei direito nos meus mortos.
A semana tinha sido de luto mais uma vez por eles. Mas no dia de fato nada me lembrou daqueles que passaram, porque ainda são presentes. Eles se hospedam em mim, no meu colo, na dor forte que sinto no meu estômago quando penso na falta que me fazem. Quero que vivam, os alucino a cada vez que os culpo por terem me deixado. 
A barata, essa minha de estimação, só veio me lembrar que tem alguma coisa em mim que tenho que matar. As baratas não me assustam, nem causam nojo, nem nada. Se aparecem, morrem com uma chinelada certeira e vão para o lixo recolhidas com um papelzinho. Familiares, esses passados parece que pedem uma chinelada e o descarte simples com um papelzinho. Se estão só na alucinação, fora da materialidade da realidade, que sejam eliminados por um ritual. Que eu os deixe passar.


Simone de Paula - 3/11/2017

 
Obrigatório mencionar Kafka e Clarice Lispector nesse conto.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Coisas da vida

Na vizinhança imunda do centro, o vento faz poesia com o jogo de loteria que caiu do bolso do carroceiro. No ballet daquele pedaço de papel, embalado pelo barulho dos carros velozes e envolvido pelo cheiro forte de fumaça quente dos escapamentos mal calibrados, fico pensando na sorte daquele homem, que apostou o pouco que tinha e nem mesmo terá a chance de ganhar uma ninharia. No seu descuido, perdeu a prova que mudaria a sua vida.


Simone de Paula -16/10/2017

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Dois

Na adolescência ela assumiu o apelido ‘Dois’. A escolha foi um tipo de ironia que todo jovem gosta de fazer e funcionou muito bem nessa fase tão difícil de inserção social. A ideia veio quando ela tirou um dois na prova de matemática, matéria em que seu desempenho sempre tinha sido exemplar. Era o destaque dela em casa e entre os professores. Mas, quando tirou o dois e viu que a turma do fundão curtiu, ela mesma resolveu se rebelar e bancar a desinteressada pelos estudos. Queria uma nova cara, um novo estilo, o dois veio ajudar a conseguir isso. De brinde ela ganhou a mãe no seu pé e o pai falando que ela só dava desgosto. Reclamava, gritava, se trancava no quarto, estava feliz, não pelos conflitos, mas porque finalmente agradava mais as pessoas que ela admirava do que os pais que ela obedecia.
Foi inventando um monte de histórias com o dois. Era segunda filha, os pais também eram filhos do meio na família deles. A casa tinha o número dois no final. Começou q andar de tranças, duas, brincando feliz com a identidade que a representava tão bem. Nas provas de matemática voltou a ter boas notas, porque entender aquele raciocínio era mais forte do que ela e nem se quisesse conseguiria ter notas baixas.
Como não podia deixar de ser, arranjou uma melhor amiga, eram duas. Mas todo o esquema seguro deu um tilt quando numa festa, um cara que elas não conheciam, mas que Dois ficou bem interessada, a provocou dizendo que se ela era a Dois, a amiga deveria ser a Um. Pane no sistema, ela não pensava assim nessa relação das duas. E mais, como ela encabeçava as escolhas, ali ela era Dois, a primeira. Sentiu ciúmes da amiga, porque notou que o cara olhava com mais atenção para ela. Sentiu raiva do cara, porque ele tinha sido esperto demais naquele jogo. Sentiu-se meio boba, pois as peças tão bem encaixadas do quebra-cabeças Dois tinham se soltado. Naquela noite Dois voltou pra casa chateada, não sabia muito como reverter aqueles sentimentos confusos e incômodos. Não queria abrir mão do que tinha conseguido com o apelido, mas não sabia como sustenta-lo diante da indiferença do outro. Afinal, se questionava por que o Um valia tanto na sociedade. Instigada pelo tema foi pesquisar. A internet era um sem-fim de assuntos e artigos que tocavam nesse tema. Mas o que mais se repetia era sobre a questão feminina, o tal segundo sexo. Percebeu que pelos ciúmes tinha se afastado da amiga, que não podia ser responsável pelo gracejo do cara que a provocou. Nem ele podia ser execrado por apenas dizer algo que era visível e ela tinha montado assim. O outro só revela o que a gente nem vê bem. Se acalmou, era tempo de olhar para frente, se rebelar menos e continuar escolhendo, sabendo que nenhuma escolha é absoluta. Tem sempre o outro lado: lado dois, lado B, qualquer das opções que se escolha há um tanto que não é positivado e jubiloso, mas enigmático e sombrio e que só se revela na surpresa e na decepção do que poderia ser um todo. 
A vida não dá garantias.


Simone de Paula - 15/10/2017

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Elementar

A fantasia tem abraços delicados, envolventes.

A fantasia de não ser desejado pelo outro.
A fantasia de não pertencer.
Não ser o que realmente é.

Há um dado inevitável: repetição.
Revivo e 
caio no buraco.
Caio no buraco.
Caio no buraco.

Até o dia que você desvia do buraco.
E segue.

Maria Laura


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

“Puta, o nome do superego”

“Puta, o nome do superego”

O titulo do artigo gritou nos meus ouvidos, como você sussurra todo dia, bem baixinho, pertinho da minha orelha
Puta, puta, puta....
Tem dias que você chega com putinha, mas logo retoma
Puta, puta, puta...
É pouco, não aguenta, invoca minha linhagem
Vagabunda, filha da puta...
Puta, puta, puta...
Diz mais, repete, insiste, continua...
Diz puta pra mim, fecha os olhos e ouve a si mesmo preenchendo a boca de gozo na palavra Puta.
Puta, puta, puta...
Diz pra mim.... diz e revela o que você nem ouve de você.


Simone de Paula -08/10/2017

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Aliança



É um casamento.
Faço imagens.
A noiva, linda, enquanto sua gota de suor, contém a transformação de uma vida inteira.
O ritual é delicado.
Os vestidos longos.
Dança, brinde, celebração.
Dança, convite, concessão.
São dois, inteiros. Arriscam-se. Encaram-se.
Disseram sim.
Sim.





sexta-feira, 6 de outubro de 2017

No meu choro só tem mim

Eu chorei demais aquele dia. Chovia.
Sai de casa animada, adiantada, pensando que uma resposta eu poderia obter. Esperei muitos minutos e fui avaliada em menos da metade do tempo da espera. A notícia não foi boa, nem ruim, mas simplesmente cifras bem notadas do meu espectro corporal. Meu organismo estava ali, mapeado, sem nenhum traço de mim nele. Mentira, era exatamente mim. 
Há meses, anos, venho provando que digo a verdade. Inclusive, nos encontros breves, tenho que ser muito incisiva para poder ser ouvida naquilo que sei expressar. Parece que não entendem como eu posso dizer a verdade, e ainda assim, furar os sistemas tão bem desenvolvidos das ciências humanas, e exatas.
Sai de lá e chorei, muito. Não pelo resultado e ao mesmo tempo, totalmente pelo resultado. Era impossível repetir tantas vezes a mesma coisa. Mentira, era possível, eu estava fazendo aquilo.
Naquele momento, tão perto de você, senti sua falta. Queria poder dizer o quanto aquilo era desastroso em mim e chorar, no seu colo, no seu ombro, para você entender que mais do que saber que digo a verdade, coisa que você parece já ter entendido, ainda assim pudesse saber o quanto essa verdade dói em mim.  Mas você não estava lá. Eu só podia chorar e esperar.
O que faço não sei, só choro e observo para poder dizer as verdades sobre mim aos que pouco querem ouvir sobre essas verdades, que derrubam as certezas e convicções que carregam por trás dos seus semblantes rígidos de saber.
Não quero uma receita cheia de remédios, quero beijinhos no lugar das pastilhinhas, eles funcionam melhor em mim. Isso é verdade.


Simone de Paula - 05/10/17

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Brown and Black

Cabelo brown, Olhos brown, Sobrancelha brown, Delineador brown, Rímel brown, Batom brown...

... Ahhhhh, batom brown...

Vestido brown, Biquini brown,Sapato brown... Opa, espera aí!

Tem também o Black, Sapato black, Calça black, Saia black, Mulher black

... Continente negro....Dizem eles.

.... Somos África....Dizem elAs.

Write!
Escreva in Brown and Black!

(Leia de novo em voz alta, sinta a sonoridade das palavras, os silêncios dos intervalos das letras, o ritmo do seu corpo e a musicalidade da sua voz. Goze!)

Simone de Paula - 24/9/2017



Obs - esse texto veio do encontro inflamado com Hélène Cixous, num domingo, 7 horas da manhã, num final de semana exaustivo. Ela despertou meus demônios, não tinha mais cansaço. 

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Próximo, de perto.

Querido,
Um amor não se sustenta sem lealdade a nós mesmos
estamos cansados de sermos agredidos pelos nossos espelhos
somos tão reais quanto a fala dura e repetitiva
posso dizer que não abraços não são desejados
que a liberdade eu não via porque a temia ainda hoje
os calcanhares estão prontos para caminhar sem a dor de sino batendo

um tempo até o barulho cessar enquanto grita. Extremo. Rude. Em gotas.

Maria Laura

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

O fio da loucura

Carlinhos podia ser considerado o 'rei do camarote'. Era um bon vivant que vinha de família abastada. Um solteirão convicto. Festas, farra, bebidas, jogos e mulheres. Cenário padrão de novela de televisão. Carlinhos não precisava ser original, encarnava o personagem. Mas essa fama toda foi desmontada no dia de sua morte.
Carlos Otávio, o Carlinhos, tinha mesmo uma família abastada. Ainda moço, com seus vinte e três anos, casou com a namorada de juventude,  Viviana. Tudo como mandava o figurino: famílias se conheciam e aprovavam o relacionamento. Era a promessa de um futuro sólido. 
O pai de Carlinhos apressou o casamento, porque já tinha percebido que o filho não queria saber de trabalho. Acreditou que Viviana, e a condição de casado, exigiriam do filho uma mudança de atitude. 
Passada a lua de mel, voltaram para a casa nova e começaram uma vida de jovem casal. Ele, saia para trabalhar de manhã, depois do café preparado por Viviana, e voltava no final do dia. Ela ficava em casa, só sonhando com os filhos que viriam. Um retrato perfeito. 
Três meses se passaram e ela estava grávida. Carlinhos já animado com o salário gordo que o pai se encarregou de pagar, resolveu comemorar com os amigos. Ali começou a vida paralela do 'rei do camarote'. Aos sábados e domingos, ele ficava com a família. Mas durante a semana, duas ou três noites, eram dele. Para Viviana, os pais dela e os dele, a desculpa era o esporte ou a reunião com um grupo de outro país, exigindo um horário diferente do usual, O pai dele sabia que ali tinha alguma coisa, mas fazia vista grossa. 
A vida correu e Viviana se divertia tendo filhos, cachorro, gato, compras, tudo que pudesse esconder os hábitos de Carlinhos. Do lado de fora, ele curti a noite da cidade e esbanjava o dinheiro polpudo que ganhava. Amantes, bebida, uma droga aqui e outra lali, só pra sair do comum. Chegava em casa com tudo escuro e todos dormindo.
Nessa roda-viva, ele conheceu Verônica, aquela que o fez  passar a primeira noite inteira fora de casa. Paixão e vício ao mesmo tempo, ele não queria largar essa mulher. 
Verônica tinha a vida dela, os amantes dela, o dinheiro que tambem vinha da família. Ela era a ovelha negra no seu meio. Falava a língua de Carlinhos, era do mesmo mundo e do mesmo submundo. Era uma mulher inteligente e controlava tudo ao seu redor. Ele, um menino crescido, que escorregava nos próprios desejos. 
O tempo passou rápido e a esposa notou que ele só voltava para casa para trocar de roupa uma vez por semana, mas trazia uma mala com trocas de outros dias. Pediu explicações e ele usava os clientes de fora. Ela falou com seus pais. O pai dela falou com o sogro, pai dele. Era preciso fazer alguma coisa. Resolveu conversar. Carlinhos ouviu a conversa do pai, mas não queria que se metessem na história dele. Ele sabia que o pai iria proibir a relação e afastar Verônica dele. Mentiu descaradamente para o pai. O pai sabia que era hora de pressionar de outra forma, tirando o pagamento de salário. Carlinhos enlouqueceu, brigou esperneou. Sem resposta positiva, se afastou de Verônica. O dinheiro voltou. O desejo voltou. Verônica também voltou. O ciclo seguiu por longos dois anos. Ele se afastava por três meses e ficava com ela por seis. Cmtrolado, fazendo de conta que não estava, mas não conseguia seguir assim por muito tempo e mostrava novamente que tinha tido a recaída. O pai teve a última conversa séria com ele e disse: chega, não aceito mais. Demitiu o filho e acabou o dinheiro. Ele não podia deixar a mulher nem os filhos, mas não tinha como sustentá-los. Pediu uma ajuda para Verônica. Ela aceitou uma vez, duas e no final de 2 meses, estava sustentando Carlinhos e a família dele. Ela não se importava e nem exigia nada dele, mas tinha para si os limites bem definidos. Carlinhos vivia agora no maior descaramento da sua vida. Não dava satisfações a ninguém. Quando queria, ia para casa, ora a sua, ora a de Verônica. Mas as noites eram nos bares e na curtição. Verônica tinha suas amigas e compromissos. Aceitava a situação, porque sabia sempre onde ele estava e o que fazia.
Ela chegou em casa perto das 11 horas. Tinha ido ao cabelereiro porque tinha um almoço naquele dia, com a amiga próxima com quem estudo. Ela se arrumava muito para esses encontros. Todas exibiam marido e filhos e ela exibia beleza e elegância. Chegou do salão e deu de cara com os sapatos de Carlinhos no meio da sala. Ele não tinha dormido lá. Ela achou estranho, imaginou que Viviana o tinha colocado pra fora de casa pela décima vez. Foi entrando no quarto, mas viu perto da porta uma echarpe carmim e sentiu o ódio subir pelo seu peito e chegar até os seus olhos. Abriu a porta e viu o que era de se esperar, ele com uma mulher desconhecida na cama dela. Cega de ciúmes, pegou a arma que tinha ganhado do tio, que sabia que uma mulher sozinha devia se proteger. Cutucou a moça que assustada com a arma, saiu correndo sem roupa mesmo. Não fez barulho, não poderia falar com ele. Se assustou com os três tiros que disparou contra o peito de Carlinhos. Soltou o corpo no chão, a arma ainda entre as mãos e esperou, sabia que em breve a casa dela estaria cheia de gente investigando a cena do crime. 
Polícia, vizinhos, Verônica levada para o saguão enquanto os policiais avaliavam o apartamento e removiam o corpo. O tio chegou para ajudá-la, foi a única ligação que ela fez antes de ser presa. Ela pediu para ele dar dois telefonemas, um para Viviana, informando da morte do marido antes da polícia. E o outro, para a amiga, caso ela não fosse liberada a tempo de comparecer  ao almoço. Assim que o tio saiu do lado dela, uma vizinha histérica começou a acusá-la de todos os nomes que conhecia. Estava insandecida e incitava a raiva das pessoas do prédio. Ela era mulher de Alfredo, primeiro amante de Verônica. Ela foi morar naquele prédio para facilitar os encontros dos dois. A mulher sabia e agora era a hora de descontar toda araiva e orgulho ferido da esposa traída. A cena foi horrível, a polícia tentava conter o espancamento de Verônica,  enquanto esperavam o IML para levar o corpo. Tudo levou menos de dez minutos. Verônica, algemada, não pode reagir. A mulher ensandecida, vingou os anos de submissão ao marido que ela tanto odiava. Os vizinhos, muito preocupados com a moral do prédio, encontraram um jeito de se livrar da imoralidade daquela moradora. O silêncio só se fez com o grito forte e grave do delegado quando ele chegou ao saguão e viu tudo aquilo. Não tinha mais o que fazer, o IML levou dois corpos. O tio informou Viviana, que sorriu ao saber que o marido tinha morrido. Ela estava livre dele agora e como viúva, seguiria sua vida deforma mais justa. No fundo, agradeceu Verônica, primeiro por não deixar que ela e os filhos passassem fome e depois por ter lhe restituído a liberdade. Quando o tio viu a sobrinha morta, sentiu profundamente, ele odiava a sociedade puritana em que viviam naqueles tempos. Ligou para amiga e a informou que Verônica não poderia almoçar com ela. A amiga agradeceu o contato e operguntou o motivo. Ele contou toda a história e informou que o velório seria no dia seguinte.

Simone de Paula - 22/9/2017

Comto inspirado na música 'Miss Otis', de Bryan Ferry, e com cara roteiro de novela da globo.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O açougueiro

José saiu da sua terra em busca de oportunidades. Levou consigo o pouco dinheiro guardado durante toda vida. Já tinha quarenta anos e não podia mais esperar. Com três camisas, duas calças e algumas fotos de família, entrou num navio cargueiro rumo ao país que acreditou ser promissor. Qualquer lugar seria melhor que ali, onde tinha sofrido desde pequeno.
Os pais de José trabalharam na terra, assim como seus avós e bisavós. A família nunca saiu de lá e viveram de sol a sol cuidando da roça e esperando o dia seguinte. José teria seguido o mesmo destino, mas os tempos mudaram, grandes fazendeiros se encarregavam de abastecer as cidades e as vilas. A pequena produção agora estragava na cozinha de José. O irmão mais velho vendeu as terras, dividiu o dinheiro entre todos os cinco filhos e cada um seguiu seu rumo.
José foi para a cidade mais próxima e procurou trabalho. Não sabia fazer nada, mas lavar pratos e chão, ele sabia. Era cidade de porto e ele via diariamente as pessoas chegando e saindo. Ele já não tinha terra, raiz, nem vínculos, era hora de partir.
Durante a viagem ajudava os marujos, queria ser útil, fazer amizades, saber como era a vida de um marinheiro que não tinha parada. Olhava como faziam com os peixes. como pescavam, limpavam e cozinhavam. Era divertido, meio nojento, mas ele se fascinava estranhamente pelas facas e cortes. Sentia tesão quando o cozinheiro do navio rasgava de ponta a ponta aquele peixe prateado com o olho vidrado. Toda noite dormia mal, num canto do convés, em cima de sacos de mantimentos. Sonhava com partes de corpo, partes de casa, partes de bicho. Ele se fascinava de dia com os cortes e sonhava à noite com as partes.
Chegou em terra firme, desceu do navio e andou a esmo. Batia nas portas dos bares pedindo emprego, queria fazer qualquer coisa. Foi contratado por um açougueiro que precisava de alguém para fazer o trabalho pesado. Ele passava o dia levando peças enormes de boi para dentro do frigorífico, limpava as bancadas cheias de sangue e sebo e ainda esfregava o chão todo final do dia, antes de ir embora.  Alugou um quartinho perto do trabalho e desmaiava toda noite. Os sonhos continuavam, mas agora eram tripas, pedaços de ossos e sangue, muito sangue. Ele não se assustava com esses sonhos, pelo contrário, acordava excitado e pensava que precisava achar uma mulher para casar. Foi ganhando a confiança do açougueiro que o ensinou a cortar a carne, prepará-la para ser vendida, aproveitar o máximo do animal. Ele treinava bem e decidiu, seria um açougueiro assim que se casasse.
Começou a namorar uma aqui outra ali. Mulher dá trabalho, pede atenção, cobra presentes. Ele já era velho, não tinha mais a paixão da juventude e não tinha muita paciência para as exigências femininas. Se viu com um problema, pois sem mulher ele não conseguiria ter força para ter o próprio negócio. Aceitou casar com Ângela, que tinha se incumbido dele como nenhuma outra. Ela levava as camisas dele pra lavar na casa dela, pois sabia tirar a mancha de sangue e gordura. Ele sujava muito as roupas, mesmo trabalhando de avental. Ela ainda dizia que ele precisava cuidar da barba e do cabelo e comer melhor à noite, para ter menos pesadelos. Ele contava seus sonhos e ela achava que eram terríveis.
Casaram e foram para a cidade vizinha. Com o apoio do patrão, o açougueiro, ele montou seu negócio - Casa de Carnes Corte Sagrado - e devolveu o empréstimo em um ano. Trabalhava duro, feliz, satisfeito com as facas e cortes.
Com filho pequeno, ele trabalhava até tarde para dar conta do negócio. Confiante, não via problemas em ficar aberto enquanto os comerciantes vizinhos iam para casa no final do dia.
Um dia, numa sexta-feira, já perto das sete da noite, dois rapazes tentaram assaltar o açougue de José., ele olhou e pensou nos marinheiros que enfrentavam tempestades e o mar bravo, dominavam peixes-espada enormes, eram corajosos e acima de tudo, ótimos manejadores de facas. Lembrando das cenas da viagem, lançou mão do facão que estava em cima do balcão e acabou com a raça dos bandidos. Demarcou um território, ali ele não seria roubado, nem naquele dia, nem nunca.
Ângela soube do ocorrido e ficou com medo. José a tranquilizou. Os vizinhos comerciantes o parabenizaram pela coragem.  Ele ficou feliz, tinha um solo. Os filhos cresceram e os sonhos continuavam. José avisou a mulher que um dia ele partiria, que seria marujo, não podia ficar preso tempo demais num único lugar. Quando o filho mais velho fez 15 anos, ele passou a chave do açougue para o menino, pegou a mala com três camisas, duas calças, fotos antigas e novas e se despediu daquela vida do porto seguro. Seguiu para a cidade em que desembarcou e se despediu do antigo patrão, agradecendo a acolhida. Reencontrou um antigo amigo, Vladimir, que estava no barco que ele veio e manteve contato desde então. Subiu no navio e percorreu o mundo com eles. Viveu aventuras, agora com seus sessenta anos, sem tanta força, mas com toda a experiência da vida. Ficou nessa vida por dez anos. Navegou pelos sete mares. Escrevia num diário tudo que passava. Mandava cartas para Ângela em cada porto que parava. Mas a aventura parecia se repetir e agora ele sabia, era hora de voltar para casa. Desembarcou num dia de domingo, ensolarado e encontrou a família que o esperava. A mulher sorria, o filho mais velho, de mãos dadas com uma moça jovem e barriguda, já seria pai em breve, e os pequenos tinham crescido. José voltou para sua família, sabia que ali a raiz era tão firme que ventania nenhuma o levaria embora para sempre.

Simone de Paula - 15/09/2017


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Mutações

Já fui queijo, provocando o desejo dos ratos, se protegendo pelas garras da ratoeira.
Já fui rato, que flerta com o queijo, medindo o risco que corre quando cede à tentação.
Já fui gato, que caça ratos pelo prazer de dominar e aniquilar. E ainda ganha de brinde a atenção do dono, que recebe um presente que indica o jogo duplo entre ser domado e não se deixar aprisionar.
Já fui dono de gato, aflito por não ter posse total do meu bicho e curioso sobre o que tem o rato de tão especial que chama a atenção do gato. 
Me fartei de queijo, tentando entender a natureza do rato e aliviar a minha impotência sobre meu próprio gato. 
Pouco importa quem mexeu no meu queijo, porque afinal, a roda gira e na busca de respostas sobre a impossibilidade de alienar um gato, volto a ser queijo, mirando o rato.

Simone de Paula - 05/9/17


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

E de tudo, nada ficou.

Te deixo agora, nessa manhã fria de outono, sabendo que o melhor e o pior que pudemos ter,  já tivemos.
Adorei e odiei você por muito tempo, na esperança de que um dia esses sentimentos opostos pudessem se encontrar na calmaria do amor.
Nada foi em vão, jamais diria isso. Sentir é o que de mais humano posso ter. 
As sensações do corpo, os sentimentos da alma, os sentidos do espírito, guiaram minha razão desnorteada pelos mistérios do desejo e da paixão. Fui mulher no mais íntimo de mim. Te revelei aquilo que só você poderia saber e ainda guardei muitos segredos para os dias que nunca chegarão.
O turbilhão incessante dos meus momentos de vigília calou, abrindo espaço para um vazio há muito esperado. Notei que gostei, mas ainda não queria voltar à mesura que me faz lúcida, polida e educada. Te conservei não por você ou pelo futuro, mas por mim e o passado. 
Hoje decidi, já posso abrir mão, porque tudo que passa pela minha vida, tem apenas esse sentido, ser parte dessa vida.

Simone de Paula - 31/08/2017


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

As interesseiras



João era um cara à moda antiga. Tinha como plano de vida ter um trabalho, família, uma casa. Era só viver como viveram os pais e os pais dos pais. Pretendia seguir o modelo seguro de vida.
Olhava muito as mulheres, especialmente as bonitas, vaidosas, exuberantes. Morria de vontade, mas não cederia à tentação.
Tinha uma certeza, essas mulheres eram interesseiras, queriam um homem para ser burro de carga delas, sustentá-las nas suas comodidades  Junto com esse julgamento, ainda vinha o rastro gelado que começava na espinha e terminava na cabeça: o fantasma da traição. Não, ele não queria isso para ele mesmo.  
Conheceu Clotilde, filha de uma parenta próxima da família. A moça não era muito bonita para os padrões dele, mas era confiável, tinha os valores compartilhados dos membros daquela colônia.  Namorou, noivou, casou. Clotilde fez muitas economias e o ajudou a comprar a casa em que o casal morava. Esforçada, trabalhava duro para dar conta das tarefas domésticas e ainda cuidar bem do marido e filhos. Ele era um homem feliz, realizado, tinha o que almejou.
Olhava para Clotilde com admiração, não por ela, mas por si mesmo de ter escolhido tão bem. Nas épocas de vacas magras ou quando precisavam reformar algum cômodo da casa, Clotilde fazia bolo para fora ou saía para vender panos de prato bordados pela vizinhança, complementando a renda da família. Estava sempre pronta para ajudar João.
Mas o destino tem seu próprio roteiro e Clotilde morreu de repente, vítima de um enfarte fulminante. João foi pego de surpresa e parecia abalado pela perda repentina e inesperada. Cuidou pessoalmente dos trâmites do funeral, chorou as poucas lágrimas que tinha e não conseguia não pensar em quem iria substituí-la. Se sentia culpado por isso, mas era inevitável, igual o rastro da traição toda vez que via belas mulheres.  
Seguiram-se os meses e João parecia querer permanecer viúvo. Sentia falta de alguém ao seu lado, para ele falar do dia quando chegasse em casa ou ter o jantar quente todas as noites. Os filhos vinham e iam de acordo com a vontade deles e João não queria muito ter que continuar cuidando dos marmanjos.
As pessoas achavam que João deveria casar de novo. E, no fundo, ele também achava. Ele não teria ninguém para sofrer quando ele morresse? Os parentes e conhecidos de João começaram a apresentar algumas pretendentes para ele.
No churrasco do aniversário do primeiro neto do primo Orlando, ele foi apresentado à Clarisse, que tinha enviuvado há mais de quatro anos. Ele a achou simpática, mas ela era um pouco gorda e ele não quis investir. Mal sabia João que Clarisse já tinha dito a Orlando que não tinha interesse nele.  Ela era muito atenciosa com os filhos e achou que João não se importava com os dele . Isso foi decisivo para ela.
Depois veio o enterro do tio-avô. Lá, entre uma conversa e outra, João foi apresentado à Heleninha, vizinha do seu Aurélio, o morto. Heleninha era bonita, elegante, era solteira e morava com a mãe, cuidava dela. João a convidou para tomarem um café, ali mesmo no cemitério.  Ele investia pouco para não perder nada. Foram, conversaram e João perguntou se ela estaria interessada em conhecer alguém mais intimamente, ter uma família. Heleninha disse que sim, que ela tinha planos de casar, mesmo mais velha. João se animou e perguntou se ele poderia ser essa pessoa. Ela disse que não, que ela não tinha interesse nele. Esperava alguém nos moldes dela, solteiro. Ele ficou decepcionado, meio sem graça, se achava tão bom partido e ela o dispensou.
Resolveu que não ia mais ter esse tipo de investida entre conhecidos, pois começou a temer pela própria reputação, não gostava de fofocas. Os meninos do escritório falavam muito dos encontros de internet e ele resolveu conhecer sua nova companheira por ali. O processo era o de sempre, olhava as fotos do perfil, conversava, convidava para um café. Mas a cada café ele ouvia novamente um desinteresse da parte delas. Uma queria só ter um companheiro para sair, ir ao cinema, um baile de vez em quando. Outra tinha sua vida, sua casa e não pretendia mudar isso, não casaria de novo. A outra ainda tinha muitas amizades e só pretendia ter um amigo para conversar. Uma delas foi clara, queria um homem para sexo, pois isso era a única coisa de que sentia falta. Com essa ele se animou. Marcaram um novo encontro.  Saíram, jantaram, foram ao motel. E lá João percebeu que ela estava bem certa do que queria , e ele talvez não fosse capaz de atender a essas expectativas. Se viu com um corpo mais velho, menos vigoroso do que imaginava. João nunca foi o rei do sexo. Com a esposa, tinham isso como uma conduta muito mais programada do que baseada nos desejos dos dois. As experiências dele foram poucas e desde a viuvez, não tinha investido nisso. E agora, ele não tinha isso para oferecer.
Seguiu os contatos e a cada nova mulher que conhecia, percebia que ele tinha um pouquinho do que elas queriam, mas não o bastante para elas ficarem. E mais, elas não pediam nada a ele, elas mesmas tinham o que queriam. O jogo de João inverteu, as interesseiras não tinham interesse nele.
Entrou num estado depressivo, não porque realmente estava adoentado, mas porque estava se vendo como nunca viu, um pobre coitado, sofrendo com o desdém das mulheres. Como elas podiam ser tão cruéis? Os filhos de João ficaram mais próximos.  Vinham com esposa e netos para lhe fazer companhia no domingo. João com aquela cara de sofredor. Todos achavam que era finalmente ele sentindo a morte de Clotilde. Ele realmente dizia que sentia falta dela, mas não sofria pela morte, mas porque não tinha ninguém que o amava sem interesse. Lembrava-se frequentemente da mãe, que preferia os irmãos a ele. Clotilde foi mais devota a ele do que a sua própria mãe. Ela sim, era uma desinteressada, não pedia nada em troca, só queria estar ali.
João não aguentava mais filhos e netos em casa, precisava mudar isso, queria que uma mulher se interessasse por ele. Começou a conversar com os amigos que estavam sempre acompanhados, especialmente os viúvos que tinham se casado de novo. Todos diziam o mesmo: “mostre interesse nela e compre o interesse dela”.
Ele não sabia bem como fazer, mas tentou.  Convidou uma para jantar, mas escolheu um restaurante mais barato, vai que o investimento é maior do que o lucro. Ela não gostou, reclamou e nem falou com ele depois. Resolveu na próxima, começar com cinema, pegar na mão. Deu certo à primeira vista, mas João foi muito afoito e logo quis partir para a cama e ela não gostou. Ele realmente tinha azar com as mulheres. Sorte, só Clotilde.
Investiu em mulheres mais novas, foi em pequenas excursões da igreja, passou a frequentar o clube, tudo em busca da nova Clotilde e nada. João não aproveitava essas experiências, apenas estava atrás de uma mulher para o amar incondicionalmente.
O filho mais velho de João, Luis Roberto, um dia teve uma conversa séria com o pai. Disse que ele estava mal das finanças, que os quatro filhos davam muita despesa, que a mulher não o agüentava mais e que tinha ido embora de casa. Ele precisava ir morar com o pai e ainda precisava do pai para ajudar com as crianças. João, a contragosto, aceitou, especialmente quando o filho lançou a frase matadora: “mamãe adoraria poder viver e cuidar dos netos, infelizmente ela morreu cedo demais para isso.” Chantagem feita, mudança realizada, João passava os dias olhando crianças brincarem e gritarem em casa. A empregada, Dora Rosa, vinha diariamente e cuidava dele também. Ele tirava umas casquinhas dela quando as crianças estavam na escola, mas nada mais do que uma mão boba e um cheiro no pescoço. João achou a vida que queria, ali, ninguém lhe pedia nada.

Simone de Paula – 25/08/2017

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Escape

"Sinto muito, eu não posso te indicar a saída."
De Dédalo escapando do próprio Labirinto à Ofélia do filme Labirinto do Fauno, as histórias estão repletas de personagens que encontram suas saídas. Aprisionados à realidade, engessada por pequenas carências ou sucessos mínimos, diante da morte, eles inventam um novo modo de agir em si, sendo levemente "sartreana".
Eu também achei minhas saídas. Não que tenham surgido assim, na minha frente, como portais mágicos de soluções fáceis. Hoje as reconheço como ofertas de movimento e desvio. Mas nas ocasiões, pareciam apenas um modo de distração. 
Tenho ouvido muitas vezes nesses tempos, ‘diversão não é distração. 'Não se distraia demais com aquilo que te diverte.’ Será? Concordo com o poeta, "toda paixão me diverte". Alguém deve ter dito, " me distraio nos teus olhos". Nos olhos não me distraio, mas na tua voz sim.
Olha lá, até concentrada no tema, tentando escrever das saídas, escapo aqui e ali, dispersando o foco e abrindo janelas de prazer nos devaneios.
Bem-aventuradas as crianças que brincam. 
Sim, primeira saída. O universo infantil é o campo da brincadeira. Lúdico e circunscrito pelo entendimento dos limites do possível. Criança quando brinca, vive de verdade a fantasia. Lá ela tem tudo que viu na realidade e imaginou a partir do mundo simbólico e onírico. Entre sonho e realidade, fantasia e invenção, eu criança determinava lugares e personagens, criando as cenas que seriam vividas de forma muito mais iludida na vida adulta, como se fossem verdades. Me iludo hoje. Quem não?
A brincadeira continuava e a leitura apareceu. Incentivada na família, porque se fazia isso para entreter crianças e por habito de adultos. Tudo simples como histórias contadas e lidas. E gibis, e claro. Daí foi um passo para conhecer uma pequena biblioteca de escola. O ambiente místico, silencioso, convidando ao encontro com o mais íntimo daqueles que leem e escrevem. A entrada no mundo das letras foi mais uma saída diante dos impasses e limites da penosa vivência encarnada.
As coisas não se sucediam, substituindo-se umas pelas outras. Se somavam. 
Chegou a música, imponente, soberana, única. Ainda hoje é o ponto mais sensível de todos, caso de vida ou morte. Saída triunfal, diversificada, garantindo o mundo solitário e inteiro no qual eu vivia nas minhas brincadeiras. Bem, isso não é bem verdade nas brincadeiras. Bem de vez em quando, elas podiam ser solitárias, mas com três irmãos, muitos primos, amigos, vizinhos, brincar só era raridade. Acho que por isso a música foi inicialmente compartilhada e hoje é meu escape mais delicioso e solitário. Eu, meu fone, e todo mundo ao redor.
Sempre parece que está bom, mas a alma insiste em se perturbar. O coração dói, a cabeça discorda, o corpo não adequa e lá vamos nós, encontrar mais uma forma de deslizar. O cinema desde sempre foi entretenimento da minha geração e foi meu grande caso de amor na faculdade. Até hoje nunca estraguei esse amor vivendo o relacionamento. Fazer cinema me levaria a odiá-lo, vendo todos os defeitos que quando se convive a gente enxerga. E lá, naquele mesmo tempo e espaço de paixões, a Arte colou na minha e não nos soltamos mais. 
Troquei as brincadeiras inventivas, por rotinas tediosas. Adulto acredita que é adulto e brinca mal. Antes mesmo de Saturno me agarrar, eu já sabia que eu teria que sair de mais um labirinto em que eu tinha me metido. Demorou, mas achei na Astrologia um nome. O tal Saturno me prendia, construía paredes. Arranjei outro - aqui posso até escolher, mas fico com a dupla Marte / Plutão - pra derrubar tudo. Fiz. Mas essa saída não foi completa, porque entre eu e os astros, eu e os Outros, eu continuava em mim. Sem as respostas para aquilo que em mim eu não entendia como eu. O encontro fulminante e inevitável com a psicanálise aconteceu. 
As paredes sobem de tempos em tempos, redefinem os caminhos limitadores do mundo, exigem de mim novos escapes. Variações em cima disso tudo, no gosto marcado e decidido.  
Incrivelmente eu não escrevi nada disso ouvindo música, mas deixei o silêncio, acompanhado dos sons do mundo, guiarem minhas ideias.

Simone de Paula - 16/8/2017


artista Maia Fiore

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Road trip

Minha infância foi recheada de viagens de carro. Meu pai adorava carros, estradas, dirigir. E minha mãe amava ver lugares, gente, e meu pai, é claro. Durante o namoro, sair era impossível, porque meu avô fazia marcação cerrada com ela. Mas eles inauguraram um modo de viver logo na lua-de-mel. Não sei como planejaram, mas pegaram o fusquinha, as malas e rumaram para o Uruguay. As fotos são lindas, poucas pois na época, meio dos anos 60, filme fotográfico e revelação custavam caro. Outra paixão do meu pai, a fotografia. Ele gostava de ser modelo quando jovem, mas se tornou 'fotógrafo' quando passou a ver mais coisas do que ele mesmo. Minha mãe conta algumas passagens desta primeira viagem, dos hotéis que ficaram no meio do caminho, de uma ou outra aventura. Mas se bem a conheço, e se me pareço com ela, o estado de paixão por tudo aquilo era maior e não há como dizer disso. 
Os filhos foram nascendo e o casal continuou viajando. O tamanho do carro aumentava, não apenas para acomodar todo mundo, mas por gosto mesmo. Meu pai adorava carro grande. Na infância, por muitos anos, íamos para o clube semanalmente, não um clube na cidade, mas um clube de campo. Era estrada para ir e estrada para voltar. A ida, era com música, escolhida por ele. A volta era a narração dos jogos de futebol. Para mim, a ida era com música, conversa e os olhos na janela, na paisagem, tanto vendo o que tinha de interessante ali, quanto avaliando quanto faltava para chegar. Na volta, era o momento do cochilo, exausta pelo dia cheio de diversão. 
Nessa mesma época, as férias eram em dois lugares, ora em Santos, no nosso apartamento, ora em Araras, na casa dos meus tios. Estradas e mais estradas. De lá pra cá e de cá pra lá. Tanto no litoral, como no interior, circular pelas cidades vizinhas era comum. 
Muita coisa rolou de lá pra cá. Meus pais se separaram, nós crescemos, meu pai morreu. Minha mãe seguiu o gosto marcado por ele e até hoje, a mala dela está sempre pronta. Se tiver o convite, o aceite é garantido. E nós, eu e meus irmãos, também fomos marcados por isso. Talvez uns mais do que outros, mas a disposição e a não complicação para partir com ou sem destino, está dentro de nós. 
Nas viagens que tenho feito por aí, tem sempre um deslocamento de carro ou de ônibus que me traz um sentimento bom, nostálgico, de prazer. Afinal, não eram viagens de compromisso de trabalho ou estudo, sempre era para algum tipo de lazer. 
Há dois anos fiz uma viagem de caro curtinha, com a minha irmã, pelo interior da França. Foi a certeza de que eu quero mais. Mais dias, mais quilômetros, mais cidades. Sair sem muito plano garante experimentar o percurso, descobrir o que tem no meio do caminho.
Chego aqui e percebo que escolhi falar do meu pai, das marcas dele em mim, em nós. Mais do que o que ele gostava ou fazia, é o que nós gostamos e fazemos. 
A minha road trip de "lua-de-mel" ainda esta pendente. Não precisa ser por esse motivo, mas que seja nesses moldes: com destino, sem definições. Let's go!

Simone de Paula - 11/8/2017