sexta-feira, 21 de julho de 2017

Só hoje

Minha hora preferida do dia é o amanhecer. 
Nos finais de semana geralmente acordo sem obrigações ou horários marcados. É justamente nesses dias que desperto cedinho. Realmente estou descansada, satisfeita de dormir. Levanto, tomo minha água, faço um café fresco e sento junto à janela que me mostra o sol nascendo no leste. Primeiro os raios, sem revelar ainda como será o dia. Depois o brilho se intensifica e me avisa se será um dia de sol ou nublado. Os dias de chuva trazem um clima diferente ao céu, mas possibilitam a mesma visão encantadora. O silêncio da cidade vai dando lugar ao barulho de carros e pessoas, na medida que a claridade se intensifica. A casa também está quieta, todos ainda dormem. Se alguém, assim como eu, está de pé, certamente faz as coisas de forma suave, lenta, tranquila, justamente para não acordar ninguém. Não é preciso falar nem ouvir. O pensamento segue rumos mais variados, imprevistos, inspiradores. Essa uma hora passa rápido, é preciso aproveita-la.

Simone de Paula - 17/6/2017

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Presente

Ele está imóvel
Ela o acolhe
Ergue seus braços
Abraça-o
Há uma relação 
Um ampara o outro
Um é o outro
Infinito, insólito, contínuo, breve

Sei de mim quando sei de ti
No eterno laço
Recriando

Novo
Não via
Agora sei


quinta-feira, 13 de julho de 2017

As Lolitas

As risadas cortam o som forte das ondas batendo no casco do barco e a música suave do vento nos meus ouvidos. Meus olhos procuram crianças, mas encontram as meninas crescidas. Duas Lolitas brincam, ora meninas, ora mulheres. Estão apaixonadas, diz os olhares cúmplices que trocam. São melhores amigas desde pequenas, mostram os pais que as acompanham. Eles estão lá com elas, mas elas estão sozinhas, livres, conectadas apenas uma a outra. Desejam.
Olho em volta e não sou apenas eu que observo. O rapaz ao meu lado também sabe que ali tem mão de Afrodite, tem desejo, sedução, união. Ele sabe porque vive o mesmo com sua menina. Eu sei porque vivo o mesmo com meu menino.
O momento é de tranquilidade. Toda a excitação do passeio e da exuberância da natureza, já passou. Ê tempo de contemplar. Elas cessam, se deixam adormecer, lado a lado, encostadas, seguras, tendo tido como último olhar, antes da pálpebra se fechar, aquela que atende ao mais encantados dos sentimentos.

Simone de Paula – 14/07/2017


A mesa redonda de girar

Rafa contou
dos múltiplos braços de afeto,
eu me lembrei de tanta coisa com ela

depois sonhei amores antigos,
uma vertigem

o que as amigas cantam
está em sintonia

afinada com a passagem
e os rituais de vôo

de terra que não conheço
as histórias da Caru
da carochinha

um brinde

algo novo está começando

Maria Laura, julho

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Serifos

Soprava o vento úmido
A gaivota insistia em enfrentar sua força
O mar cedia fácil, agitado, molhando quem se aproximasse
As montanhas recortavam o céu e emolduravam a cena toda
Ali, a vida é preguiçosa. Nas casinhas brancas quero o anonimato com você.

Simone de Paula - 07/07/2017


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Ciclo

Ela 

- Você viu aquele vídeo que te mandei?
- Sobre o filme que a gente gosta?
- Esse
- Não
- Não?
- Eu até queria, mas...
- Boa noite

Já sei, nunca mais mando vídeo nenhum, com esse descaso não dá, dessa vez não fico calada não, cansada disso,  toda vez...que frieza, cansada, cansada.

Ele

- Bom dia, tá bem humorada hoje?

- Eu? Meu humor é ótimo, contagiante! O que não gosto é de conversar com a parede
- Haha. Eu estava acordado no meio da madrugada revendo aquele grande clássico com lágrimas nos olhos. A mensagem no meio dessa hora não coube. Dormi e acordei tão inspirado que fui escrever, fazer coisas. Eu até que gosto quando fica brava achando que a medida de gostar de você tem a ver com a resposta imediata que quer. Você me faz rir. Não há nada mais prioritário na minha vida do que isso.

Impressionante. Ele me pegou de novo! Danado.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

De uma queda foi ao chão

Gosto tanto desse verso da canção popular chamada ‘Terezinha de Jesus’, que resolvi contar essa breve história das minhas férias  de verão.
Tinha acabado de começar o inverno no Brasil e eu escapei do frio escolhendo passar férias na Europa
 Sim, eu sei, parece esnobe, mas não é. Me interesso pelo mundo, pelas pessoas, quero sabet do que está além do meu quintal. Não sou religiosa e nem gosto de futebol, não crio inimigos nos diferentes. Tenho planetas na casa 9 do meu mapa natal, planetas importantes, dispositor do meu sol e regentes do Ascendente e Meio do Céu, só vivo na minha cidade de origem pela minha Lua de casa 4. Mas voltando...
A viagem estava sendo deliciosa: lugares, coisas; pessoas...
Desde o primeiro hotel, em Zagreb, na Croácia, lugar que sonhei conhecer e nem sabia que aconteceria tão rápido, encontrei a piscina do hotel, interna, aquecida, pronta para nadar.
Em Split a rotina continuou e ainda tinha saunas. Diversão do fim da tarde antes do jantar.
Em Hvar, cheguei ao paraíso. Encontrei a dupla perfeita mar-piscina pronta para me receber.
Fiz tudo como de costume: maiô, cabelo preso, chinelos, toalha. Mas, à beira-mar, nem sempre a natureza pode ser controlada. O limo ensaboou a pedra, as havaianas não seguraram o liso do chão e minha queda provocou a dor e o pavor na palma da minha mão. Tremor, sangue, preocupação. A toalha molhada denunciava o sangue que escorria da ponta dos dedos. Sentei,  senti, suspirei, me decepcionei.
Incerta sobre uma fratura, fui ao hospital e tive duas gratas surpresas: 3 plantonistas croatas, lindos evidentemente, e nada quebrado.
Antes de tudo isso eu tinha acordado com um pouco de dor no ombro. No caminho da piscina, minha panturrilha anunciou uma contratura. Finalizei com o tombo bobo que me deixou com uma mão enfaixada, muito inchaço, dor e incômodo.
Os dias passam, tudo vai voltando ao normal.

Simone de Paula – 30/6/2017



quinta-feira, 29 de junho de 2017

Navegável

Estava na mesa de jantar
falei do monstro

Ele não avisa nada, chega e sempre é aquele velho conhecido
se renovando com a ingenuidade dos que o invocam, acho
Você já sabia e ainda crê imensamente que tem o poder de evitar
Tola

Proponha uma conversa
que tanto me exige que eu não vejo?
Por que se repete?
Tanto tanto

Foi quando a Mel lembrou do Guimarães Rosa
“Todo abismo é navegável a barquinhos de papel”


Hora de dormir

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O redemoinho

O redemoinho
A situação toda foi do pavor ao alívio e tudo durou poucos segundos.
O sofá era completamente confortável. E eu deitei. Mas minha ansiedade não me permitiu ficar assim. Sentei e falei em uma velocidade enorme. As palavras saiam e eu as ouvia, sem conseguir segurá-las. A vertigem foi tomando meu corpo, me derretendo. Fui desfalecendo. Eu via a minha imagem, meu rosto, se desmanchando. A boca escorrendo e as palavras não se articulavam mais. Sentia medo, pavor. Tentava desesperadamente falar mais para conter aquilo que acontecia sem nenhum tipo de controle. Eu estava prestes a me entregar quando senti seu corpo atrás de mim. As mãos tamparam as minhas orelhas, fecharam os meus ouvidos. Num único gesto, a proteção e o abraço acolhedor.  Você me segurou junto a você. Não caí. Seu corpo me serviu de amparo. Apoio..
Mais do que parar de falar, você me ajudou a parar de ouvir. O abraço veio pelas minhas costas, invertido, envolvendo a cabeça através dos ouvidos, retendo o redemoinho turbilhonado dos meus pensamentos torturantes.
Dali não quis sair. Só relaxar e dormir. Encostei em você, suspirei e dormi.

Simone de Paula – 21/6/2017

quinta-feira, 22 de junho de 2017

As Horas

Quando sinto demais a sua falta,
percebo que ando em falta comigo.

É preciso escutar o abandono.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Degelo

"Há quanto tempo você não faz uma loucura?"
Leu essa frase no anúncio de vodka no ponto de ônibus indo para o trabalho. Geralmente ia de carro, pois gostava de conforto. Era pouco preocupado com o trânsito carregado, inclusive reclamava disso todas as manhãs, mas não se sentia parte do problema, tinha direito porque trabalhava muito. Usava a desculpa de muitos.
Já estava bravo o bastante por ter que deixar o carro na oficina mecânica, ainda tinha que dividir o ônibus cheio com mais um monte de gente carregada de sacolas. Bufava muito. Mas não deixava de pensar naquela frase. Se sentia meio amolecido, tendo que sustentar uma raiva que carregava há muito tempo e parecia ter se descolado um pouco dele. Detestava vodka, não se tratava disso, mas justamente da loucura que realmente não fazia há muito tempo. Tinha acabado de tomar consciência que se tornou o que dizia jamais ser, um trabalhador burocrata que não faz nada de divertido na vida, só o trajeto casa-trabalho-casa e xinga o chefe dez vezes por dia em voz baixa. 
Chegando no trabalho começou a fazer uma linha do tempo imaginária. Na cronologia, tinham buracos, não lembrava de muita coisa. Percebia lapsos de memória em relação a amigos, professores, namoradinhas, se assustou. Pegou um papel e foi escrevendo retroativamente, ano a ano, queria recuperar as lembranças e principalmente reviver as loucuras que sabia já ter feito. Os seus vinte anos foram maravilhosos, cheios de experiências e aventuras. Vivia duro, em todos os sentidos. Não recusava nada. Lembrou de um amigo com quem saia todo final de semana e agora estava tão distante, casado, com filhos, careca e barrigudo. Mal se falavam, nenhum assunto combinava e a nostalgia dos encontros já não colava mais. O pensamento no amigo puxou uma namoradinha, que vivia dizendo que tinha planos doidos para a vida dela. Teve certeza que poderia reencontra-la, ver se ela tinha seguido os planos. Naquela época ele queria muitas coisas, mas não tinha grana para fazer. Hoje tem a grana e parece não querer mais nada. Essa era a grande questão, lembrar dos sonhos antigos e realiza-los agora. Mas eram coisas tão bobas. Na verdade, eram desejos de um rapaz de vinte anos. Passou o dia meio nostálgico, tristonho, trabalhando em câmera lenta. No ônibus, voltando pra casa, olhava os anúncios para tentar rever o cartaz da vodka. Procurando, achou outro cartaz, dessa vez era um urso polar, num comercial de canal da tv a cabo. Pensou que sempre quis conhecer neve e no Brasil ele jamais teria isso. Naquele momento, o estômago gelou e o coração incendiou, viu o cartaz da vodka na frente dele e decidiu, ia conhecer o bar de gelo que sabia existir na Suécia. Chegou em casa, pesquisou, ia gastar a grana que tinha e que não tinha, mas era uma questão de fazer uma loucura.
No dia seguinte, chegou para o chefe e pediu férias, disse que precisaria sair já na próxima semana. O chefe negou, e ele sorriu. Comprou a passagem, podia ser demitido, era só uma questão de loucura, melhor que não fosse fácil. 
O destino estava se cumprindo direitinho, pois tudo dava errado nos preparativos, pedindo que ele se empenhasse muito, era pra ser coisa de maluco. Vôos com várias escalas para chegar até lá, hospedagem na casa de desconhecidos, pouca grana pra comida. Descobriu que além do bar, teria um festival com bandas que jamais viriam tocar aqui, na terra dele. Comprou ingressos, ia para o festival e passaria dias e noites em claro. Estava quase tudo pronto, mas essa trip tinha que ter companhia, era o resultado de tantos papos nas noites loucas que ele já tinha vivido. Ligou pro amigo, aquele que agora só pensava na família. Sabia que podia levar um não, e que junto viria um tanto de decepção. E foi assim que aconteceu. Pensou na doida, tentou encontra-la nas redes sociais, só assim daria. Nem lembrava sobrenome, mas foi procurando pelos antigos amigos das baladas. Chegou, achou, sentiu de novo o gelo no estômago e o quente no coração. Fuçou no perfil dela, separada, sem filhos, morando na Argentina. Mandou mensagem, quem sabe ela toparia. Ela respondeu, ela riu muito, ela topou. Em dois dias ela estava no Brasil. Se encontraram no aeroporto, sem muito sentimentalismo, parecia que tinham se visto o mês passado. Eram próximos, viveram muito perto na juventude, quando as máscaras são menos pesadas e a intimidade mais fácil. Estavam embarcando quando ele recebeu uma ligação do chefe. Atende, dizendo que está no aeroporto e viajando de ferias. Do outro lado, a gritaria só fez com que ele sentisse mais ainda o prazer da loucura. Desligou, pegou na mão dela, sorriam e entraram na sala de embarque.

Simone de Paula - 16/6/2017


sexta-feira, 9 de junho de 2017

O amor acontece

Se for para o amor acontecer, que seja logo de cara.
Ouvi recentemente a história de uma mulher que desde nova tinha decidido não se meter com as coisas do amor. 
Alguns pensariam que ela desejava entrar para um convento. Mas não, porque nesse caso, teria amor, só que destinado a um deus.
Ela também não quis cuidar dos pais mais velhos ou filhos dos outros, foi viver sozinha, longe dos familiares. Estava decidida a viver uma vida simples, sem maiores afetações emocionais. 
Não era uma questão de ter controle sobre tudo, lidava bem com imprevistos. Era comum colocar o leite para ferver e ir regar algumas plantas e quando ouvia o chiado do líquido no fogão e o cheiro de queimado, saia correndo para apagar o fogo. Se irritava levemente por ter que limpar a sujeira, mas isso não a abalava. 
Também não era limitada ao seu pequeno mundo, fazendo compras nos mesmos lugares evitando novas pessoas na vida. Pelo contrário, quanto mais estranhos, menos contato, menos afetividade envolvida. Vivia no mundo das coisas e não das pessoas. Não era amarga, só não queria vínculos.
Os sobrinhos geralmente a achavam solitária e queriam que ela tivesse algum animal de estimação. Para ela nem cachorro, nem gato, nem peixe, nem pássaro. Não queria companhia e achava absurdo  o bicho ficar submetido e preso pela carência dos homens. Ela não se sentia carente.
Não era chata, mas vivia apenas para si. A vida já exige bastante atenção e trabalho, simplesmente para se manter vivo, não precisa mais do que isso. As donas de casa sabem bem, pois da hora que acordam até a hora de ir dormir, passam o dia todo fazendo coisas que deverão ser feitas novamente no dia seguinte. Comida, limpeza, arrumação, e tudo pede repetição.
Ela também não era uma melancólica que esperava a morte, pelo contrário, vivia. Era comum comentar que mulheres que não se casavam e viviam sozinhas, tinham maior longevidade do que aquelas que se dispunham a sofrer de amores e maternidade.  
Gostava muito de jardinagem, plantas, flores, uma pequena horta. Escolheu onde morar justamente para poder se dedicar à terra e tirar dela os prazeres dos sentidos. Sua casa sempre estava enfeitada com as flores do seu jardim e a refeição tinha algo que tinha sido plantado e colhido por ela. Admirava também os insetos. Abelhas, caracóis, formigas. Conhecia os que eram amigos das plantas e os que poderiam destruí-las. Sabia também como exterminar os inimigos invasores sem usar veneno para si mesma e nem para a flora exuberante que tinha criado. 
Era véspera de natal e a família se reuniria na casa dela para as comemorações. Ela gostava de recebê-los em ocasiões especiais. Estava concentrada no jardim, escolhendo o que ia usar para o vaso do centro da mesa da ceia, quando ouviu palmas no portão. Era um jovem rapaz que sorria e tinha um saco de algodão nas mãos. Ela não era desconfiada e nem medrosa e se aproximou para saber o que ele queria. Ele se apresentou. Tinha mudado recentemente, vindo do interior onde tinha sido criado numa chácara. Comentou que passava diariamente pela casa dela e ficava namorando seu jardim, pois sentia falta da terra e das plantas, porque onde morava hoje só podia ter vasos. No saquinho, ele trazia algumas sementes da sua planta preferida e queria saber se poderia plantar ali. Como se tratava de uma espécie de raiz profunda, seria impossível fazê-lo em um vaso. Ela ficou surpresa e animada. Não tinha imaginado compartilhar seu jardim, mas pareceu uma boa ideia. Enquanto ele plantava, ela observava as mãos dele, prestava atenção aos gestos e as explicações que ele dava sobre aquele tipo de semente e planta. Tudo foi muito rápido e ela se pegou completamente arrebatada pelo tom suave da voz daquele jovem. Quando se despediram, ela sentiu falta de continuar envolvida com o sotaque simples do interior e o conhecimento profundo das coisas da terra. Foi fisgada e nem era um peixe.
No dia seguinte ele veio e ela o convidou para almoçar com todos, afinal, era dia de natal e ele estava longe de casa. Ele aceitou e nunca mais saiu de lá. Ela sabia que não era apenas o amor por ele, mas o amor que compartilhavam que os unia. O desejo apareceu, evidentemente. Eles se relacionara além da fronteira da amizade. Recuaram quando notaram que aquilo poderia se transformar numa batalha de ciúmes e disputa e aceitaram o acordo de paz. O limite era o jardim. Ele propôs aumentarem o espaço disponível para as plantações, pois queria fazer daquilo seu ganha-pão. Foi perfeito. 
Anos se passaram até que um dia ele se despediu, voltaria para o interior, não pertencia à cidade.
Ela imaginava que isso poderia acontecer. Não se importou, as coisas devem mudar de tempos em tempos. Ela tinha entendido porque a tal planta preferida era especial para ele e cuidava dela no seu jardim como forma de agradecimento a ele, por ter provocado nela o amor.

Simone de Paula - 09/06/2017






sexta-feira, 2 de junho de 2017

Protestos, processos

A crise interna era grande. Nem se tratava da luta do desejo com a repressão. O desejo há muito não existia e a repressão já tinha sido desmantelada. Restava agora o pior. Hábito a serviço da preguiça e medo a serviço do vazio. Descrevendo assim não parece, mas era um vício. Tudo é vício, mesmo que nem se classifique como droga. 
Aliás, começou como um desejo que visava transgredir. Seja lá o que for, já era ilícito. Tinha uma lei que proibia fazendo ser desejo.
A lógica que estruturava sua tortura já tinha sido definida. Culpa insistente, desistência, gozo pleno, culpa eterna, racionalização, resistência, tédio, vontade, culpa insistente novamente. Uma bela cadeia. Mais precisamente, uma solitária.
Visto que era um modo de funcionamento, não era novo. Se repetia toda vez que um novo desejo aparecia, sendo arrastado para a organização prisional pré-estabelecida. Dúvida é, cumpre-se a pena até o fim, ganha-se liberdade por bom comportamento ou cria-se uma fuga?
Existia culpa e muita, mas nada que determinasse prisão perpétua. Seus vícios não eram reconhecidos como tal, deixando a brecha que recorta o tempo definir um limite, encontrar o 'chega!'
Na cadeia usada, tem tédio. O tempo fica parado, cessa de trabalhar no sentido do andamento do processo de punição. Parece que há o bom comportamento envolvido, porque na organização, tem sempre uma prévia racionalização que destaca a aceitação. Foi por aí que saía de um vício para outro, ou melhor, reencontrava o vicio com opções variadas.
Mas como seria a fuga? O fugitivo não aceita condições, não se adequa ao sistema, cria uma saída justamente aonde os muros são mais duros. Cavuca, faz buraco de minhoca, conta com o tempo inútil para inventar o escape. Pra isso funcionar, a lei e a culpa devem ficar suspensas, liberando o sujeito para um movimento alternativo. Rebelde, faz graça com a obediência, transgride movido por desejo. Isso tudo não pelo vicio que movimenta a culpa, mas para mostrar desdém à punição, curtir com a cara da cadeia,  montando uma nova organização.
É, parece que todo desejo só pode ser assim porque encontra o que é proibido.
Na reinserção social, ninguém consegue se livrar das marcas do processo. Melhor aceito pelos bons modos, se dispondo a ajustar-se aos costumes. Pior aceito, refletindo um estado que escapa ao controle total. O destino é o mesmo, uma hora você cai de novo na roda que gira produzindo outro cenário para a mesma brincadeira.

Simone de Paula - 02/06/2017

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Respiração

- Lembrei de um dia que você me magoou muito. 
- Que dia?
- Aquele, do travesseiro.
- Que travesseiro?
- O que você rasgou inteiro durante o ataque de fúria.
- Ah...verdade, você foi horrível aquele dia.
- Não, eu só não consegui falar.
- O que você queria falar?
- Sobre a minha vergonha de contar para você e para mim que eu cresci achando que o erro era todo meu, assim, só por ter nascido eu já estava atrapalhando, ferindo as pessoas, o que me deixou culpado e triste. Como não sei falar isso, como não sei nada disso direito, sou mais fechado, defensivo, é como eu sei. Jamais diria horrível, isso é coisa sua que também é horrível quando não pode escutar nada a sua volta. E como grita! Com seu berro no meu ouvido, acabei me dando conta. 
- Do que você se deu conta?
- Que eu não fui bom comigo. 

Se abraçam.

Ele: Eu te amo
Ela: Eu também, me desculpe pelo travesseiro.





quinta-feira, 25 de maio de 2017

O-culpante, o-culpado

Ela seguia o processo costumeiro de eleger certo e errado em todas as situações. Se orientou pelo modelo moral, rígido e obediente de quem tem no formato padronizado a conduta apurada e bem educada. Mais do que polidez, era a obediência a quem nem lhe tinha ensinado a agir em causa própria.
Tomava como regra o que era excessão, seja para o bem, seja para o mal. Dizia "tudo, todos, nunca, nada", estabelecendo a universalidade que lhe servia de medida particular.
Seguindo o espírito progressista, investiu num curso de teatro para soltar um pouco o corpo e aproveitar o improviso para despertar a criatividade.  O medo de ficar nua e ser agredida verbal ou fisicamente eram os fantasmas que insistiam em lembra-la da ousadia que a mantinha ali. Era mesmo inusitada e estava pronta para o que der e vier, pensava.
Mas a surpresa veio num exercício de cena em que o diretor do grupo pediu para todos colocarem as roupas separadas no camarim. A imaginação voava, frisson, o que encontraria ali?  Pendurados em cabides estavam ternos de  cores escuras, sapatos bem lustrados e gel para passar nos cabelos. Todos pareciam usar uniforme. Ela se impressionou em pensar que aquele era o tipo de roupa que usava diariamente na empresa. Não era exatamente um terno, mas seguia o modelo repetido de corte e cores mais escuras, sem destaque. 
Todos vieram para a sala de ensaio e o diretor posicionou cada um de uma forma. Ela, em pé, mal sabia o que lhe esperava. Obediente, seguiu a ordem de não falar nada, não relaxar a postura, se portar como um soldado em posição de sentido. As instruções foram dadas de maneira bastante discreta a cada um dos alunos. O elemento surpresa estava garantido, ninguém sabia ao certo o que aconteceria ali. E ela, era a que estava mais mal informada, pois nem imaginava que personagem interpretaria.
A cena começou. Cada um falava na sua vez. A linguagem era técnica, com caráter jurídico. Ela entendeu, estavam num tribunal. Olhava atenta, queria saber qual seria a deixa para sua entrada. Começou a desconfiar, o diretor não tinha lhe  indicado nem a deixa, nem a fala. Olhava os colegas, olhava o diretor, todos pareciam ignora-la. Ansiosa, respirava fundo para manter a rigidez de postura. No avançado do processo, as falas repetidas, nada parecia fazer sentido. E então, chegou a hora, ela foi chamada. Um dos advogados da cena começa a interroga-la. Ela não sabia do que se tratava e foi respondendo as perguntas de improviso. Angustiada, não sabia de que crime era acusada. Tentava descobrir, se colocando como inocente, negando a autoria de qualquer delito. As perguntas cessaram, ela voltou ao seu lugar estático de origem. O juiz então inicia a sentença, dizendo não ter dúvidas sobre a autoria do crime e ainda complementou que houve dolo. Ela estava completamente de mãos  atadas antes mesmo de ser algemada. Quis falar, tentou, mas recebeu reprimendas, pois ali, ela não podia falar, seu tempo tinha esgotado durante o depoimento. Seu advogado, declaradamente fraco, denunciava estar à frente do caso de uma ré culpada, sem defesa.
A situação se encaminhava para o final da sentença quando ela ouviu da boca da juíza, "declaro a ré culpada!" 
Num estado desesperado, percebendo que alguém se aproximava para prende-la, ela grita, "culpada de quê?" Ali, personagem e personalidade se misturaram e ela se imaginou atrás das grades. A juíza sorriu e respondeu com um tom de grande satisfação, "culpada por ser vítima." 
Ela não entendeu nada, foi levada para o fundo da sala, algemada, atônita. Todos aplaudiram a si mesmos, rindo satisfeitos com o belo exercício de improviso. Ela estava muda, sem conseguir voltar ao personagem de si mesma que tinha inventado. A polidez, a educação, a sociabilidade, tudo tinha desmontado.
Voltou pra casa chorando muito. Não sabia porque um exercício tinha tocado tão fundo. No caminho, não conseguia olhar pela janela do carro e emitir juízo sobre pessoas ou atitudes como era costumeiro.  Não sabia como voltaria ao grupo, tamanha vergonha que sentia. Entendeu a nudez no que foi exposto e revelado. Agressão verbal e física, podia ser muito mais dolorida e desmoralizante do que imaginava. Se viu só com sua sentença, consciente da pena que deveria cumprir. 

Simone de Paula - 25/5/2017

O Casal e sua Língua

Mandei um link outro dia de um clip que eu adoro, tem uma música na língua que você fala, ligeiramente meloso, mas é sensacional.

Sei, eu vi que você mandou mesmo.

Silêncio 

E aí? Gostou?

Não abri.

Silêncio

Desculpa, como?

Não abri.

Você não abriu um link que te mandei com uma declaração de amor bollywoodiana?

Eu já sabia o que era, não gosto, me irrita, câmera lenta, coisa boba. Eu falo pra você que ficar supondo uma reação minha não é exatamente a realidade.

Hmmm

Nem dá pra ficar brava porque a resposta é essa, se fosse a outra, a que você gostaria, não seria minha e portanto mentira. 

Entendo, digamos que a resposta não precise deixar de ser sua, mas: não gosto desse clip, já conhecia, mas adorei receber esse carinho no meio da noite, sabia que estava pensando em mim e sorri com isso até dormir.

Foi exatamente o que quis dizer.

Mas você não respondeu nada!

Então, por isso mesmo.









quinta-feira, 18 de maio de 2017

Contagem progressiva

Escolhi.
Virei a ampulheta e a corrida do tempo começou.
No primeiro dia, a certeza antecipada fez palpitar o coração na mesma velocidade dos grãos de areia que escorriam pelo fino gargalo daquele instrumento angustiante. A contagem do tempo, mais do que tranquilizar, fez parecer necessário o que eu não queria mais e o afastamento suscitava meu desmontar. 
Me segurei.
No segundo dia, uma paz invadiu minha alma. Eu esperava mesmo por isso. Era assim. Seria assim. Um fim nunca acaba no dia do adeus. Um jorro de confiança me mantinha na linha do tempo.
Sorri.
No terceiro dia olhei o tempo longo, infinito. Pensei na contagem, no ábaco. Um, dois, três... Os contáveis tentando dar conta de algo impreciso, indefinido, indeterminado. No horizonte tinha o zero, o vazio, escuro. Muitos sucumbem. 
Resisti.
No quarto dia a distração e a nova rotina assumiram um papel significante, deixando passado e futuro de lado. A alma deu ao pensamento o seu lugar. Era assim, seria assim. Consequências das escolhas parecem melhores do que incertezas do desejo.
Compreendi.
No quinto dia, a surpresa. À minha revelia um passado com cara de futuro interdita minha contagem, atravessa meu tempo, demarca um dia no meu calendário. Não me perco, mas me confundo. Invoco à Ariadne que me relembre do fio condutor, do caminho que estava sendo percorrido. Do labirinto eu sairia depois de libertar o monstro do cruel destino de sofrimento a ele imposto pelos deuses caprichosos. 
Confiei.
No sexto dia, a antecipação da rotina reflete a garantia da conquista. Quase uma semana, logo um mês. Eu tentava burlar a regra do tempo para me impor à ele, como se eu tivesse uma força maior do que as minhas lembranças e o meu desejo, pequeno e mesquinho. Era apenas o sexto dia, nada além disso.
Continuei.
Sétimo dia. Parece contagem dos mandamentos. No relógio, o sétimo minuto nem é tão importante. Os números inscritos de cinco em cinco nos fazem esquecer o que está lá, mas não se destaca. Nos habituamosRepetimos as dúzias e meias dúzias das compras domésticas. A idade vem nas marcas do corpo. No tempo do mundo, décadas, séculos, milênios. 
Perdi a conta contando sobre as contagens do tempo. 
Eu nem sabia mais quanto tempo fazia e o passado volta mais uma vez . Insistente, desdenha da minha escolha, provoca minha vaidade e meu vício em bater na mesma tecla, tomar a mesma melodia, não pelo ensaio ou para aprimorar a música, mas para continuar sentindo a ponta do dedo no piado. 
Não zerei.
Pensei que tinha menos tempo para trás do que para frente. Como no mar, surfistas e marinheiros sabem que é preciso passar a arrebentação para navegar. Sem transpor essa marca de limite, ficamos no ir e vir da maré, entregues ao balanço das ondas, sem chance de seguir em frente, no ilusório movimento, mas restritos à borda de areia de um litoral conhecido.
Remei.
Não precisei começar do dia Um novamente, ele já estava marcado na minha jornada, eu seguia dali, de onde eu tinha interrompido, aberto uma fenda para respirar, avaliar, decidir. Uma escolha tinha me levado até ali.
Segui.

Simone de Paula  17/05/17

Alado

Não, não está tudo bem.
Sim, sei, é um momento
não há nada que dure tanto assim.
Parecia que você ia dizer algo, mas acabou passando.
Verdade, foi mesmo, era o que?
Menor idéia, agora, vem cá, posso falar uma coisa? Sinto tanta raiva de você que nem dá tempo de elaborar.
Elaborar?
É... a gente fala na terapia, sinto raiva de você porque alguma raiva já está dentro de mim, aí projeto no outro sabe?
Sempre?
Puxa, acho que sim, mas é o que eu tô falando, ela é tanta que nem dá pra dar nome, deslocar, é só sentindo mesmo.
Dá pra melhorar?
Pra que?
Bom, achei que queria parar o incômodo.
Eu até queria, porque essas coisas tomam a gente toda, mas não sei se dá pra parar não, porque outras coisas importantes ficariam sem lugar também,
coisa mais louca é que precisa de tudo aqui na frente pra gente não esquecer e vai ficando grande grande e tem hora que dói, mas dói bem doído.
É assim mesmo.
Sei. Preciso abraçar os aliados alados invisíveis.






sexta-feira, 12 de maio de 2017

A rocha

Ela era uma mulher dura, embrutecida. Se vestia com a capa cinza-chumbo da proteção, como os médicos do raio x, que se previnem da radiação. Tinha lhe faltado amor. Amor suaviza.
Não tinha medo, nem limites, só agressão. Escondia no semblante tenso a verdade da sua enorme falta, a dívida que tinha consigo mesma, por não ter sido interessante a ponto de ser, pelo menos, admirada. A vaidade defensiva era constante, mas o olhar melancólico insistia em mostrar a dor, o rasgo no coração.
Ela amou, muitas vezes, esperando o amor de volta. Imaginava que se desse o primeiro passo, poderia encontrar o que tanto buscava. Não deu certo. Mas aprendeu a dar primeiros, segundos, terceiros passos.
Não chora, mas range os dentes agoniada pela insegurança brutal que ocupa toda a sua alma. Pensa de forma reta, direta, sem ruídos que denunciam a vida imprecisa. Desdenha aqueles que se entregam às fraquezas, acreditando que sucumbem ao pior deles mesmos. Não quer nem sentir o cheiro da surdez do fracasso. Se agarra ao mastro ilusório do sucesso como Ulisses diante das belas sereias, mas o canto mágico está dentro dos seus ouvidos e aquela nau segue sem destino. Sem saber, ela deseja, implora aos deuses que uma rocha apareça na sua frente, fazendo a embarcação se chocar com força, libertando sua alma solitária.
Os deuses sempre atendem nossos desejos. A rocha veio com nome e sobrenome, se colocou mais duro do que ela. Desdenhou cada frase que ela dizia e mal olhava nos seus olhos. Ela gamou, ele nem viu. Sofreu, chorou, respirou e estava pronta para retomar a vida, a mesma negando mais uma dor, mais um fracasso no amor. Vestiu novamente o jaleco cinza-chumbo e voltou ao trabalho como de costume. 

Simone de Paula - 12/5/2017



quinta-feira, 11 de maio de 2017

Música

Dioníso era filho de Zeus e Sêmele
Nascido duas vezes, de um ventre de mulher e de uma coxa de homem

Está sempre por perto quando giram os ciclos

Extraia o mel e plantava a vinha
O Deus embriagado
Forte, sábio

Prepare-se: 
a festa vai começar agora

Dance

sexta-feira, 5 de maio de 2017

O bê a bá do amor



Tudo aquilo que eu digo, que tu dizes, são palavras frescas improvisadas num momento de tensão.
Quando isso falta, a lágrima úmida se derrama como alento à solidão. 
No frio respiro, encolhida na beira da cama quente, que alivia  meu coração.

Simone de Paula - 05/05/2017


quinta-feira, 4 de maio de 2017

Deus do vinho, Baco!

Ariadne adormece na ilha
Teseu foge

Está só
tudo é água
nada

Como pôde?
Dentro, devastado

Afrodite, Afrodite!
Clama

Por que pensas que seria assim abandonada?
Um propósito que desconheces?

Vê ali quem chega
Caminha rápido para ti
Para ti!

Seus olhos de dor o cativaram
Não por pena ou consolo

Apenas, reconheceu-se 

Ariadne, venha, não tema
disse o deus, Dionísio.


Brindemos seu calor enquanto a amo.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

A chuva

O barulho era de chuva
Mas não caía água 
Na aurora do dia.

Pela fresta da janela
Eu via o céu
As nuvens corriam.

Cinzas no sopro de deus
Acompanhavam a luz
Que surgia suave, delicada.

Dormi com a chuva
Úmida e brilhante 
No asfalto negro 

Acordei com o som
Insistente da água
Que escorria de lá.

Lá onde?

O outono está
Preparando aquilo
Que o inverno trará.

Simone de Paula - 22/04/2017




quinta-feira, 27 de abril de 2017

O Labirinto do Monstro

Pegue este novelo
Use-o como guia

O caminho é sombrio e assustador
Um labirinto
Um quase sem fim de contornos

O Minotauro virá ao seu encontro
Detenha-o, mate-o
E volte para mim

Será meu marido, amante, casa
Rio, céu e montanha
Teseu, volte, volte para mim

...

Ariadne, escute:
é outro seu destino
Será deixada, você ainda não sabe
Durma, tudo tem sua hora.

Maria Laura






































sexta-feira, 21 de abril de 2017

Os desvios da razão

Meu pé está cansado
Rachado de tanto caminhar
Nesse chão batido.

Pensei ter encontrado
Aquele lugar abençoado
Em que pudesse repousar.

Me enganei, visto que calo
Sentimentos tão antigos
Que não podem mais bradar.

O peito apertado
Enrolado pelas cordas da razão
Busca paz na solidão.

Olho, choro
Lágrimas escorrem
Deslizam até o chão

O pé descalço
Na terra úmida
Encontram uma nova missão.

Simone de Paula - 21/04/2017

Foto: Tommy Ingberg


Poema (se é que isso é um poema) inspirado no filme 'O Piano', de Jane Campion