quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Elementar

A fantasia tem abraços delicados, envolventes.

A fantasia de não ser desejado pelo outro.
A fantasia de não pertencer.
Não ser o que realmente é.

Há um dado inevitável: repetição.
Revivo e 
caio no buraco.
Caio no buraco.
Caio no buraco.

Até o dia que você desvia do buraco.
E segue.

Maria Laura


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

“Puta, o nome do superego”

“Puta, o nome do superego”

O titulo do artigo gritou nos meus ouvidos, como você sussurra todo dia, bem baixinho, pertinho da minha orelha
Puta, puta, puta....
Tem dias que você chega com putinha, mas logo retoma
Puta, puta, puta...
É pouco, não aguenta, invoca minha linhagem
Vagabunda, filha da puta...
Puta, puta, puta...
Diz mais, repete, insiste, continua...
Diz puta pra mim, fecha os olhos e ouve a si mesmo preenchendo a boca de gozo na palavra Puta.
Puta, puta, puta...
Diz pra mim.... diz e revela o que você nem ouve de você.


Simone de Paula -08/10/2017

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Aliança



É um casamento.
Faço imagens.
A noiva, linda, enquanto sua gota de suor, contém a transformação de uma vida inteira.
O ritual é delicado.
Os vestidos longos.
Dança, brinde, celebração.
Dança, convite, concessão.
São dois, inteiros. Arriscam-se. Encaram-se.
Disseram sim.
Sim.





sexta-feira, 6 de outubro de 2017

No meu choro só tem mim

Eu chorei demais aquele dia. Chovia.
Sai de casa animada, adiantada, pensando que uma resposta eu poderia obter. Esperei muitos minutos e fui avaliada em menos da metade do tempo da espera. A notícia não foi boa, nem ruim, mas simplesmente cifras bem notadas do meu espectro corporal. Meu organismo estava ali, mapeado, sem nenhum traço de mim nele. Mentira, era exatamente mim. 
Há meses, anos, venho provando que digo a verdade. Inclusive, nos encontros breves, tenho que ser muito incisiva para poder ser ouvida naquilo que sei expressar. Parece que não entendem como eu posso dizer a verdade, e ainda assim, furar os sistemas tão bem desenvolvidos das ciências humanas, e exatas.
Sai de lá e chorei, muito. Não pelo resultado e ao mesmo tempo, totalmente pelo resultado. Era impossível repetir tantas vezes a mesma coisa. Mentira, era possível, eu estava fazendo aquilo.
Naquele momento, tão perto de você, senti sua falta. Queria poder dizer o quanto aquilo era desastroso em mim e chorar, no seu colo, no seu ombro, para você entender que mais do que saber que digo a verdade, coisa que você parece já ter entendido, ainda assim pudesse saber o quanto essa verdade dói em mim.  Mas você não estava lá. Eu só podia chorar e esperar.
O que faço não sei, só choro e observo para poder dizer as verdades sobre mim aos que pouco querem ouvir sobre essas verdades, que derrubam as certezas e convicções que carregam por trás dos seus semblantes rígidos de saber.
Não quero uma receita cheia de remédios, quero beijinhos no lugar das pastilhinhas, eles funcionam melhor em mim. Isso é verdade.


Simone de Paula - 05/10/17

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Brown and Black

Cabelo brown, Olhos brown, Sobrancelha brown, Delineador brown, Rímel brown, Batom brown...

... Ahhhhh, batom brown...

Vestido brown, Biquini brown,Sapato brown... Opa, espera aí!

Tem também o Black, Sapato black, Calça black, Saia black, Mulher black

... Continente negro....Dizem eles.

.... Somos África....Dizem elAs.

Write!
Escreva in Brown and Black!

(Leia de novo em voz alta, sinta a sonoridade das palavras, os silêncios dos intervalos das letras, o ritmo do seu corpo e a musicalidade da sua voz. Goze!)

Simone de Paula - 24/9/2017



Obs - esse texto veio do encontro inflamado com Hélène Cixous, num domingo, 7 horas da manhã, num final de semana exaustivo. Ela despertou meus demônios, não tinha mais cansaço. 

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Próximo, de perto.

Querido,
Um amor não se sustenta sem lealdade a nós mesmos
estamos cansados de sermos agredidos pelos nossos espelhos
somos tão reais quanto a fala dura e repetitiva
posso dizer que não abraços não são desejados
que a liberdade eu não via porque a temia ainda hoje
os calcanhares estão prontos para caminhar sem a dor de sino batendo

um tempo até o barulho cessar enquanto grita. Extremo. Rude. Em gotas.

Maria Laura

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

O fio da loucura

Carlinhos podia ser considerado o 'rei do camarote'. Era um bon vivant que vinha de família abastada. Um solteirão convicto. Festas, farra, bebidas, jogos e mulheres. Cenário padrão de novela de televisão. Carlinhos não precisava ser original, encarnava o personagem. Mas essa fama toda foi desmontada no dia de sua morte.
Carlos Otávio, o Carlinhos, tinha mesmo uma família abastada. Ainda moço, com seus vinte e três anos, casou com a namorada de juventude,  Viviana. Tudo como mandava o figurino: famílias se conheciam e aprovavam o relacionamento. Era a promessa de um futuro sólido. 
O pai de Carlinhos apressou o casamento, porque já tinha percebido que o filho não queria saber de trabalho. Acreditou que Viviana, e a condição de casado, exigiriam do filho uma mudança de atitude. 
Passada a lua de mel, voltaram para a casa nova e começaram uma vida de jovem casal. Ele, saia para trabalhar de manhã, depois do café preparado por Viviana, e voltava no final do dia. Ela ficava em casa, só sonhando com os filhos que viriam. Um retrato perfeito. 
Três meses se passaram e ela estava grávida. Carlinhos já animado com o salário gordo que o pai se encarregou de pagar, resolveu comemorar com os amigos. Ali começou a vida paralela do 'rei do camarote'. Aos sábados e domingos, ele ficava com a família. Mas durante a semana, duas ou três noites, eram dele. Para Viviana, os pais dela e os dele, a desculpa era o esporte ou a reunião com um grupo de outro país, exigindo um horário diferente do usual, O pai dele sabia que ali tinha alguma coisa, mas fazia vista grossa. 
A vida correu e Viviana se divertia tendo filhos, cachorro, gato, compras, tudo que pudesse esconder os hábitos de Carlinhos. Do lado de fora, ele curti a noite da cidade e esbanjava o dinheiro polpudo que ganhava. Amantes, bebida, uma droga aqui e outra lali, só pra sair do comum. Chegava em casa com tudo escuro e todos dormindo.
Nessa roda-viva, ele conheceu Verônica, aquela que o fez  passar a primeira noite inteira fora de casa. Paixão e vício ao mesmo tempo, ele não queria largar essa mulher. 
Verônica tinha a vida dela, os amantes dela, o dinheiro que tambem vinha da família. Ela era a ovelha negra no seu meio. Falava a língua de Carlinhos, era do mesmo mundo e do mesmo submundo. Era uma mulher inteligente e controlava tudo ao seu redor. Ele, um menino crescido, que escorregava nos próprios desejos. 
O tempo passou rápido e a esposa notou que ele só voltava para casa para trocar de roupa uma vez por semana, mas trazia uma mala com trocas de outros dias. Pediu explicações e ele usava os clientes de fora. Ela falou com seus pais. O pai dela falou com o sogro, pai dele. Era preciso fazer alguma coisa. Resolveu conversar. Carlinhos ouviu a conversa do pai, mas não queria que se metessem na história dele. Ele sabia que o pai iria proibir a relação e afastar Verônica dele. Mentiu descaradamente para o pai. O pai sabia que era hora de pressionar de outra forma, tirando o pagamento de salário. Carlinhos enlouqueceu, brigou esperneou. Sem resposta positiva, se afastou de Verônica. O dinheiro voltou. O desejo voltou. Verônica também voltou. O ciclo seguiu por longos dois anos. Ele se afastava por três meses e ficava com ela por seis. Cmtrolado, fazendo de conta que não estava, mas não conseguia seguir assim por muito tempo e mostrava novamente que tinha tido a recaída. O pai teve a última conversa séria com ele e disse: chega, não aceito mais. Demitiu o filho e acabou o dinheiro. Ele não podia deixar a mulher nem os filhos, mas não tinha como sustentá-los. Pediu uma ajuda para Verônica. Ela aceitou uma vez, duas e no final de 2 meses, estava sustentando Carlinhos e a família dele. Ela não se importava e nem exigia nada dele, mas tinha para si os limites bem definidos. Carlinhos vivia agora no maior descaramento da sua vida. Não dava satisfações a ninguém. Quando queria, ia para casa, ora a sua, ora a de Verônica. Mas as noites eram nos bares e na curtição. Verônica tinha suas amigas e compromissos. Aceitava a situação, porque sabia sempre onde ele estava e o que fazia.
Ela chegou em casa perto das 11 horas. Tinha ido ao cabelereiro porque tinha um almoço naquele dia, com a amiga próxima com quem estudo. Ela se arrumava muito para esses encontros. Todas exibiam marido e filhos e ela exibia beleza e elegância. Chegou do salão e deu de cara com os sapatos de Carlinhos no meio da sala. Ele não tinha dormido lá. Ela achou estranho, imaginou que Viviana o tinha colocado pra fora de casa pela décima vez. Foi entrando no quarto, mas viu perto da porta uma echarpe carmim e sentiu o ódio subir pelo seu peito e chegar até os seus olhos. Abriu a porta e viu o que era de se esperar, ele com uma mulher desconhecida na cama dela. Cega de ciúmes, pegou a arma que tinha ganhado do tio, que sabia que uma mulher sozinha devia se proteger. Cutucou a moça que assustada com a arma, saiu correndo sem roupa mesmo. Não fez barulho, não poderia falar com ele. Se assustou com os três tiros que disparou contra o peito de Carlinhos. Soltou o corpo no chão, a arma ainda entre as mãos e esperou, sabia que em breve a casa dela estaria cheia de gente investigando a cena do crime. 
Polícia, vizinhos, Verônica levada para o saguão enquanto os policiais avaliavam o apartamento e removiam o corpo. O tio chegou para ajudá-la, foi a única ligação que ela fez antes de ser presa. Ela pediu para ele dar dois telefonemas, um para Viviana, informando da morte do marido antes da polícia. E o outro, para a amiga, caso ela não fosse liberada a tempo de comparecer  ao almoço. Assim que o tio saiu do lado dela, uma vizinha histérica começou a acusá-la de todos os nomes que conhecia. Estava insandecida e incitava a raiva das pessoas do prédio. Ela era mulher de Alfredo, primeiro amante de Verônica. Ela foi morar naquele prédio para facilitar os encontros dos dois. A mulher sabia e agora era a hora de descontar toda araiva e orgulho ferido da esposa traída. A cena foi horrível, a polícia tentava conter o espancamento de Verônica,  enquanto esperavam o IML para levar o corpo. Tudo levou menos de dez minutos. Verônica, algemada, não pode reagir. A mulher ensandecida, vingou os anos de submissão ao marido que ela tanto odiava. Os vizinhos, muito preocupados com a moral do prédio, encontraram um jeito de se livrar da imoralidade daquela moradora. O silêncio só se fez com o grito forte e grave do delegado quando ele chegou ao saguão e viu tudo aquilo. Não tinha mais o que fazer, o IML levou dois corpos. O tio informou Viviana, que sorriu ao saber que o marido tinha morrido. Ela estava livre dele agora e como viúva, seguiria sua vida deforma mais justa. No fundo, agradeceu Verônica, primeiro por não deixar que ela e os filhos passassem fome e depois por ter lhe restituído a liberdade. Quando o tio viu a sobrinha morta, sentiu profundamente, ele odiava a sociedade puritana em que viviam naqueles tempos. Ligou para amiga e a informou que Verônica não poderia almoçar com ela. A amiga agradeceu o contato e operguntou o motivo. Ele contou toda a história e informou que o velório seria no dia seguinte.

Simone de Paula - 22/9/2017

Comto inspirado na música 'Miss Otis', de Bryan Ferry, e com cara roteiro de novela da globo.