sexta-feira, 21 de abril de 2017

Os desvios da razão

Meu pé está cansado
Rachado de tanto caminhar
Nesse chão batido.

Pensei ter encontrado
Aquele lugar abençoado
Em que pudesse repousar.

Me enganei, visto que calo
Sentimentos tão antigos
Que não podem mais bradar.

O peito apertado
Enrolado pelas cordas da razão
Busca paz na solidão.

Olho, choro
Lágrimas escorrem
Deslizam até o chão

O pé descalço
Na terra úmida
Encontram uma nova missão.

Simone de Paula - 21/04/2017

Foto: Tommy Ingberg


Poema (se é que isso é um poema) inspirado no filme 'O Piano', de Jane Campion

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Eco

Ele disse que gostaria de ir ao parque e depois almoçar
Pensei que fazia isso para agradar um desejo meu, que não era uma escolha genuína

Depois, era noite e preferiu o silêncio, os olhos quase não se moviam
Algo deve ter acontecido, suspeitei

A imaginação tomou um caminho onde tudo era certo, sem dúvidas
Ele adoraria estar em outro lugar
Ou com outra pessoa
Nada que cabia ali estava presente
Não éramos

Há um longo caminho:
Ouvir o outro

Eu te conto da minha realidade, do monstro
Então de longe, escuto com nitidez
Uma voz
Sua
Minha

E nos encontramos.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Quimeras

O dia é cinza, o clima pesado, passado.
Os últimos tempos têm sido de perdas e lutos. O momento é de passagem.
Hoje é 'sexta-feira santa'. Termina a quaresma, começa a páscoa. Estou nisso, nessa época.
Meu peito dói, meus olhos choram. Meu espírito recluso acompanha a minha alma calada.

É curioso que eu eu tenha acordado com a palavra 'quimera' no meu pensamento. E ela não veio sozinha. Foi muito precisa me lembrando de um fragmento que li há poucos anos e decifrava sua composição: "tudo é parcialmehte verdadeiro e o animal totalmente falso."
Nem me lembro quando ouvi pela primeira vez a palavra quimera. Só sei que cada vez que o som das letras articuladas anunciam aquela imagem eu me ligo. Parece que entro num mundo paralelo, recuperando cada uma das lembranças dos antigos encontros com esse animal simbólico e garantindo que nenhuma das partes falte. A cada novo encontro, mais elaborada fica a minha quimera. É música, é ficção, é ilustração, tudo que possa me dar pistas disso que enigmaticamente revela tanto, sem dizer nada. É tão instigante ver como as partes se articulam, se montam numa forma completa, definida. 
Diante do luto, a quimera. Diante do sonho a quimera. Diante do amor, a quimera. Diante do espelho, a quimera. Diante da céu, a quimera. 
Nunca menti. De todas as minhas recordações, todos os pedaços são verdadeiros, num bom arranjo que jamais alcançará a verdade, mas me permite fazer correr no tempo, a vida maturada no ventre de um touro, as ideias e amores elevados sob as asas de uma águia e os atos movimentados pelas patas de um leão. 

Nesta semana me perguntaram se eu tinha uma paixão secreta. Respondi que variadas formas de paixão secreta existem e que evidentemente, o segredo deveria permanecer guardado, pois que graça existe em revelar as paixões a não ser ao apaixonado em seus devaneios? Eos circula, procura, encontra. Brinca e se diverte. Segue seu caminho. Quando passa, dá passagem a novos mundos de desejos e realidades, incita o movimento, mas pede que se siga viagem, dando motivos para partir, na esperança de chegar. 

Em resposta a frase que insiste, "tá bom, mas isso não é um conto", só temho uma resposta: "conto porque conta". 


Simone de Paula - 13/4/2017

Conto inspirado no livro 'Autobiografia de um espantalho', de Boris Cyrulnik, na música 'Quimeras', do grupo Zero, no comto 'Quimera', de Jorge Luis Borges, e tantas outras imagens e referências. 

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Pergunta

Me diga:
O que você precisa?

No prato
Na casa
No afeto

Maria Laura, frio, São Paulo.


quinta-feira, 6 de abril de 2017

Rumos

Seguiu dirigindo por muito tempo, parando apenas para abastecer o carro, comer alguma coisa e descansar, quando os olhos começavam a embaçar. Estipulava as paradas de forma mais frequente do que fazia na cidade, quando esperava o tanque chegar à reserva, a barriga roncar por falta de alimento e cochilava levemente enquanto escrevia os relatórios. Nessa estrada a coisa funcionava diferente, mas também não queria parar, ainda não era o momento de encerrar aquela viagem.
A decisão pela saída sem rumo numa estrada desconhecida, surgiu num dia em que leu os relatórios que vinha fazendo sobre uma longa pesquisa e não encontrou nenhuma possibilidade de algo novo. Era mais do mesmo, repetição, tudo que ela já tinha visto antes. Aliás, que outros já tinham concluído. A personalidade rebelde insistia em querer ver diferente, onde era impossível. Se deu conta disso, levantou daquela cadeira marcada pelo excessivo tempo em que permaneceu sentada e saiu.
Pegou algumas roupas, que combinavam com estações do ano e determinavam um estilo pessoal. Ela poderia ser ‘reconhecida’, mesmo sem se apresentar, pois era possível supor sua identidade. Carro, dinheiro, documentos e um mapa. Sabia para que direção seguir, mas não sabia onde iria parar.
Notou que seguia o mesmo movimento da pesquisa, pois via as mesmas placas, mesmo que com nomes diferentes de cidades. Quando parava, escolhia os mesmos lugares para descansar e as mesmas comidas para engolir. Não via nada novo e nem se sentia despertando do torpor em que estava naquela cadeira de casa. Ia, sem parar, pois não tinha motivos nem objetivos.
Não tinha coragem nem de parar, nem de voltar. Não tinha rumo, nem rota, mas também não encontrava em que se concentrar ou se ancorar. Lembrou que a praia seria um destino mais abrangente. Seguiu para lá.  Mas não encontrou nada novo, porque não conseguia nem saber o que buscava e nem o que tanto reencontrava.
Parou no meio da estrada, desceu do carro, sentou ali, olhando o céu, o horizonte, tudo e nada. Deixou o tempo passar, apenas respirando e sossegando a alma. Anoiteceu, a lua brilhava ao lado de muitas estrelas. Teve apenas uma certeza, que a busca poderia continuar, mas o que ela mais desejava naquele momento era a cama quente, da casa aconchegante, do lugar mais familiar que conhecia, do seu próprio eu.

Simone de Paula - 07/04/2017

Óleo de corpo

Ela prepara o jantar,
imagina ser notada pelos sentidos
Ele chega em casa, está cansado

Comem

Algo não é dito
Ele não quer dividir a angústia velada que o acompanha todos os dias
da porta de casa ao trabalho 
Cala

Ela propõe uma massagem
Poucos minutos depois ele adormece

Acordam em desacordo

- Não faço mais massagem! Você dorme! 
- E por que eu deveria ficar acordado?

Ela pensa, demora, conclui:
Se eu deixar a raiva, ele pode existir e relaxar

Devo admitir, gosto desse soninho.

Maria Laura, São Paulo, chove.

sexta-feira, 31 de março de 2017

É simples, mas será que é amor?

Foi tudo simples: ele falou, eu perguntei, ele aceitou, deu certo.
É mais ou menos como um Édipo diante da Esfinge, ela fala, ele responde - acerta, ta vivo; erra, morreu!
No campo dos desejos essa lógica da esfinge funciona tão bem que a gente nem percebe, mas sente da mesma forma, sem nem pensar que pode ser diferente. Se o outro aceita, eu acerto, júbilo. Se o outro recusa, eu erro, vexame.
Será que para homens e mulheres dá no mesmo? Entre eu e minhas amigas, pelo que sondei, seguimos nesse sentido. Mesmo que a gente decore diferente, crie uns detalhes para dar uma graça personalizada, mas ou é êxtase ou desgosto. Com eles fica difícil investigar, não falam, disfarçam, desconversam. Alguns escondem os sentimentos, isso eu sei, mas será que todos?
A gente pode até pensar alternativas para reinterpretar o que sente, mas o sentido já foi sentido e não dá pra voltar atrás, é verdade. O coração não engana, a cabeça sim.
Pensei agora nas aulas de Filosofia, quanto mais eu repasso Platão e Aristóteles, mais eu me percebo orientada pelo segundo. 
Há anos desisti de me acovardar diante da Esfinge, se tiver que morrer, que seja tentando, pois eu estaria mais morta se evitasse colocar a prova um saber sobre o meu desejo.

Simone de Paula - 31/3/2017