sexta-feira, 25 de maio de 2018

O que há em mim

Nasci assim, com aquele treco dentro de mim. 
Nem sabia pra que aquilo servia. Será que era mesmo pra mim? 
Achei que então devia ser para um outro que pudesse receber aquilo com que vim.
Tentei aqui, errei ali, escolhi manter assim, aquilo em mim. 
No dia que percebi que através de ti aquilo saia de mim, reconfigurei. 
Mostrei, exibi, ofereci, mas ainda não era assim. Achei que era para ti, mas não.
Ai descobri que não era nem pra ti, nem pra mim, mas pra quem?
Será que é pra alguém?
Sigo pensando o que fazer com o que há em mim, que se move através de ti, mas sabe-se lá pra onde deve ir.

Simone de Paula - 25/5/2018

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Set Analítico

Era uma festa com brinquedos coloridos, barulho e bolinhas espelhadas pelo chão.
Crianças, gritaria, pés descalços e pelúcias soltas pelos cantos.
Mães de salto alto, pais beliscando coxinhas e falando do timão.

Meu amigo, meu grande amigo, da escuta atenta e um olhar fino,  aquele que nos abraços me diz: “Conte comigo”, estava comigo.
Era para ser uma carona daquelas rápidas, para pegar a sobrinha e voltar com ela para continuar a brincadeira em casa.

Outro tempo.

Enquanto eu seguia entre algodões doces azuis turquesa e areias prateadas, ele ficou bem ali na porta.
Foi logo embalado por três gerações. 
Primeiro a mãe, depois a filha e a avó.

Ele, o terapeuta pego de surpresa. 
Elas, falando sem parar, mostrando a si mesmas como em uma grande vitrine gritando: desvende-nos!
A angústia precisava ser dita fora dos limites da sala, atravessada entre um gole e outro da bebida destilada, disfarçada de uma tarde infantil.

Quanta história.

Pensamos em sincronicidade, esbarramos em conceitos, ficamos boquiabertos. Cada encontro tem cada um! 
Lu, meu querido, um conto tem seu tempo e  história. Esse amor é sem palavra. Apenas está. Amor de quando a gente gosta muito de alguém e vive um monte de coisas juntos. E se emociona.

Então agora.


Maria Laura, SP.




sexta-feira, 18 de maio de 2018

Quebra-coco, racha-a-cuca


Martela, martela, bate-bate.
Fura, perfura, esburaca essa carcaça que só traça quer habitar.
Um susto suspende o silêncio.
O incessante do barulho impede a concentração.
O que deve fluir, atravanca, na tentativa desconcertada de gritar quando o tom baixo é que pode revelar o que é segredo, o que vem do fundo, o que está dorminhando.
Tudo começou sem aviso prévio. Se negociou sem sentido algum, para nada, só para tentar reconstituir um laço que já estava frouxo. Se estendeu até não se saber mais como conviver.
Paz, paciência, resiliência, adeus.

Simone de Paula – 18/05/2018

quinta-feira, 17 de maio de 2018

2

Deixe o tempo dele.
Fantasia! Se disperse aos poucos para caber as coisas que sobem.

Ele soube que eu destranquei as portas e agora ele pode entrar,
instale-se amor. 

Maria Laura, SP.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Lembranças da mãe-rainha do lar


Chegou o momento que ela pretendia adiar para o resto da vida, mexer nos armários da mãe. Já tinha chorado a morte, entendido que isso acontece, reclamado com os deuses, estava pronta.
A casa era pequena, não tinha muitos pertences e ela deveria ser racional e se despedir de tudo, deixando que aqueles objetos, agora sem uso, pudessem ter algum tipo de utilidade para outra pessoa.
Começou pelo guarda-roupas. As coisas estavam em ordem, mania da mãe. Abriu as malas e colocou tudo ali, desde casacos até calcinhas. Fechou e olhou o armário vazio. A mãe não tinha joias e foi apenas uma questão de praticidade, tudo ia dentro da mala, junto com a mala.
Entrou no banheiro, as toalhas de banho e tapetinhos tiveram o mesmo destino, mas estes foram nas sacolas de plástico grandes que tinha conseguido nas lojas de produtos em atacado no bairro em que morava.
Na sala, os móveis seriam todos retirados pela casa de doação, mas os enfeites foram colocados em caixas de papelão que trouxe do mercado. A mãe era muito cuidadosa com seus bibelôs e ela seria também, mesmo que tivesse decidido doar absolutamente tudo.
Na cozinha, retirou das gavetas as toalhas de mesa, guardanapos, aventais e panos de prato. Percebeu que para as panelas, vasilhas e potes de plástico, precisaria de mais caixas e sacolas. Antes de sair para buscá-las no carro, abriu todas as portas dos armários para avaliar os eletrodomésticos e calcular o tanto de coisas que ainda faltava embalar. Achou o que nem lembrava que estivesse ali, o livro de receitas. Era muito velho, com folhas rasgadas; borrado pelos ingredientes do preparo de algum quitute. Folheou, queria achar a sua receita preferida. Tinha esquecido de pedir para a mãe ensiná-la a fazer aquele doce que ela tanto comeu na infância, adolescência e vida adulta, e amava.
Como será que o doce chamava? A mãe dizia que era o Pudim da Maria Helena, mas isso não dava muitas pistas. Lembrava do gosto, mas era tudo tão amalgamado que não podia distinguir muito um ingrediente do outro. Além do mais, quem era Maria Helena? Ela nunca tinha ouvido que alguma amiga, ou parente, tivesse esse nome. Mas continuou olhando atentamente as páginas e eis que 'Ele' brilhou diante dos seus olhos.  O nome era esse mesmo, escrito com letra bem feita, caprichada. Ovos, leite, leite condensado, licor de anis, baunilha, raspas de limão, parecia simples. Tinha também o modo de preparo, demorado, mas aparentemente sem muitos segredos. Sorriu pela ideia de fazer o pudim naquela hora, ali mesmo na cozinha da mãe, como uma traquinagem, como uma homenagem. Ainda tinham alguns ingredientes nos armários, só faltavam ovos e leite que ela foi comprar no mercadinho da esquina. Voltou e foi direto ao buffet da sala, pegar o licor, que sabia onde ficava guardado. Com as bebidas achou uma caixinha de papelão, decorada com decalques, bem no fundo, escondida. Abriu e viu cartas, cartões, fotos. Suspirou, talvez encontrasse ali segredos da mãe. Se perguntava se estaria preparada. Voltou para a cozinha, começou a fazer o doce. A primeira parte foi fácil, bater todos os ingredientes no liquidificador. Depois, caramelizar a forma de buraco no meio e colocar no forno em banho-maria por ‘milhares de horas’. Enquanto o pudim cozinhava pegou um cálice lindo, do jogo de taças que tinha sido presente do casamento dos pais, e se serviu de licor. Imitava o jeito da mãe segurar a taça, mas também lembrava que na infância ela brincava com os copos, mas só com água. Se sentou no sofá, colocou a caixa no colo e foi olhando. Primeiro as fotos. Todas tinham data e ocasião anotadas no verso. Os principais momentos da vida. Tinham poucas fotos dela, apenas no nascimento, um ou dois aniversários e a formatura. Mas tinham muitas fotos da mãe, na juventude, com amigos, com parentes, com os pais, com seu pai e com outro homem. Curiosa foi olhar quem seria aquele bonitão. Virou a foto e viu a data, não fez sentido, pois ela já era nascida e estava na escola nesse ano. O nome era neutro, Carlos. Não lembrou de nenhum Carlos. Na descrição da ocasião leu a frase: viagem para a praia. Engoliu, sorriu. Pegou as cartas, ali deveria ter mais informações.
Entre os escritos nas folhas amassadas de tanto manuseio, leu bilhetes do pai para a mãe, conversas e notícias de algumas amigas, confidências com Carlos. As dele, eram cartas lindas, de amor, de proibição, de tristeza. Mas ainda não sabia onde tinham se conhecido, o que tinha acontecido. Será que o pai tinha descoberto o romance? Achou uma foto em que reconheceu o lugar.  Era o portão da escola em que tinha estudado quando pequena. Sentiu um choque, uma espécie de medo, estava chegando perto de uma revelação, já sabia o que era, mas não tinha coragem de pensá-la. Carlos era pai de um de seus colegas de escola, o Mauricio. Ela lembrou. Estudaram juntos, faziam trabalhos um na casa do outro. O pai dele, se ocupava do garoto todas as tardes e a mãe era secretária e nunca aparecia. As memórias pareciam escorregar para a sua consciência numa velocidade impressionante, não dava para conter mais nada, era uma enxurrada. Ela ia muito mais à casa de Maurício do que o contrário. A mãe ia junto e ficava lá, ajudando Carlos com alguns afazeres dele. Uma vez, eles pediram para as crianças ficarem no quartinho de estudos que iam fazer um bolo de chocolate. Sim, o bolo foi feito, mas eles iam com frequência para o quarto no andar de cima, com a desculpa de ver um conserto na cortina ou pregar botões de camisa. Ela lembrou que sentia algo estranho, mas não sabia o que era. Agora sabe, a mãe teve um caso amoroso e fez sexo com outro homem enquanto ela estudava com o amiguinho no quarto ao lado. A mãe, com essa história, 'pedia muito' a ela nesse momento. Que revelação!   Será que algum dia poderia entender? Se fosse qualquer amiga, ela entenderia. nessa hora se viu uma menina, se sentiu desprotegida e ao mesmo tempo parecia ter sido traída. Pegou o licor, encheu o cálice, tomou de um gole e colocou mais bebida. É um fato, aconteceu. Ela precisava se mexer, andar. Tudo isso era forte demais e parecia que ia explodir e sair do seu corpo. Era alma e emoção demais para um corpo só. Foi até a cozinha ver o pudim, demoraria ainda umas três horas. O que faria nesse tempo todo com as provas da traição da mãe ali? Lembrou que no carro ela tinha uma mochila com tênis e roupa de ginástica e que tinha um parque perto da casa da mãe. Foi correr, precisava se desgastar. Uma hora depois voltou. Tomou um banho e usou as toalhas que tinha guardado. Abriu as malas e pegou uma calcinha da mãe, não tinha previsto tomar banho fora de casa.
O pudim cozinhava e ela continuava repassando as lembranças da caixinha, tentando entender os sentimentos. Os pais viveram juntos até a morte dele. A mãe foi uma viúva. Se perguntava por que ela se sentia traída. Era a filha e seria a filha sempre. O que ela esperava ?
Voltou às cartas, se perguntava como terminou. Organizou a correspondência por data, incluindo cartões postais e fotos. Na verdade a mãe tinha organizado por grau de importância, deixando para cima o mais revisitado e embaixo o menos importante. Ela foi reconstruindo a história que ali estava em pedaços. Era um diário sem o formato tradicional. Sentiu orgulho e achou a mãe bem criativa. Mas o ciúme, não conseguia se livrar daquele sentimento. No fundo ela queria uma desculpa para a mãe, mas não tinha nenhuma, foi apenas isso, um caso, uma paixão, algo naquela vida normal. Leu em uma carta de Carlos que a mãe o tinha assediado e quase infartou. Como assim, a mãe tinha sido a agente de tudo? Ele falava em tom simpático que aqueles sorrisos e piscadas eram insinuantes demais para ele resistir. E, quando ela se ofereceu para ficar enquanto as crianças estudavam, ele cedeu. A mãe tinha decidido ter um caso, não tinha sido tentada e cedido à tentação. Aquela mãe organizada, comedida, que tomava apenas o licor de anis e sofreu o luto do pai, não combinava com sorrisos e piscadas insinuantes. Seguiu a leitura, o pudim começava a cheirar. Sentiu o cheiro e um enjoo estranho. Ela fez uma careta. Parou. Lembrou. O cheiro era da casa do Maurício. A mãe do menino, esposa de Carlos, a secretária que sabia só fazer uma receita na vida, o pudim de anis. A mãe era amiga da mulher do amante???!!!??? O buraco ficava cada vez mais fundo. Ela sentia uma decepção enorme, mas sabia que isso era o moralismo dela que falava alto, que se fosse sua amiga, ela entenderia totalmente. Agora iria até o fim. Estava na dúvida se seguia a cronologia ou partia logo para a última carta. Ansiosa, pegou a última. Era de Carlos, que dizia que aquela situação precisava ser definida, pois ele tinha recebido uma proposta de trabalho em outro Estado. Ele dizia, “Venha comigo, meu amor. Vamos viver como tantas vezes imaginamos. As crianças são nosso maior bem e são pequenas, se adaptarão a uma nova situação. Maria Helena e Cléber (o rosto sério do pai apareceu na sua cabeça), superarão, são adultos, saberão continuar a vida deles. Eu quero viver essa história além do que temos hoje”.   Não tinha a resposta da mãe, mas imaginou. Tinha um cartão assinado C. que era dele, com uma paisagem litorânea, ensolarada, com a data que contava dois anos após a carta do pedido de união. Ele dizia apenas, “aqui é lindo, você estaria radiante, não te esqueci, mas posso viver de lembranças. Love, C.” Ela só se perguntava que mulher era aquela, que começa um caso e decide abandonar um homem cheio de promessas de amor. Ela queria a mãe viva para perguntar por quê? Era tarde demais.
O pudim estava pronto, cheiroso, ela desligou o forno e o deixou esfriando em cima da pia. Mais uma dose de licor e foi pegar as caixas e sacolas para os eletrodomésticos da cozinha. O celular tocou, perguntavam se o caminhão da casa de doação poderia ir até lá retirar tudo. Ela disse que sim.
Juntou todas as lembranças, cartas, fotos e cartões, na caixinha de decalques e colocou na bolsa, junto com o licor de anis e o livro de receitas. Não quis doar os cálices, os embalou e colocou junto à sua mochila. Desinformou o pudim bem na hora que os rapazes chegaram. Eles levavam tudo para o caminhão e ela disse que no final comeriam o melhor doce do mundo, o pudim da Maria Helena. Foi assim que ela voltou para casa, com um resto de pudim ainda na forma de banho-maria, um livro de receitas da mãe-rainha do lar, os cálices que tanto eram caros a ela, uma calcinha usada e a caixa de recordações da mulher desconhecida, que era sua mãe.

Simone de Paula - 17/02/2017



Conto enviado para o concurso Sweek Leia Mulheres com o tema Descoberta.
Publicado agora no blog em homenagem ao dia das mãe que acontece no próximo domingo.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Jataí


No ofício.

- Cheguei de viagem e ainda não conversarmos atentamente.
- Faz tempo que não escuto os arredores, minha voz está gritante.
- Almoçamos?

Checaram as devidas entregas do dia. Tem sempre alguma pendência enquanto acontece uma boa prosa.

- 12h40, está pronta?
- Sim, te espero no final da escada.

Desceram 5 mulheres, uma grita:

- Falta a Cris! Está embaixo!

Saem todas juntas. Mesma mesa. Pedidos feitos. Uma abelha ronda o açúcar da doçura dessas moças. Vem a impaciência. A abelha se aproxima dos olhos, boca, braços. Tensão. Redobrada. Lembra a picada com ferrão da infância, doía tanto e agora quer controle. Perde as estribeiras, bate na mesa, gira a cabeça e solta um grito.

- Chega!

Coro: pelo menos a comida era boa, sim, sim, sim, que sobremesa!

Outro dia.

- Você ficou chateada?
- Por que?
- Não falamos da viagem, sua reação com a abelha, sei lá né. Terapia tá em dia?
- Ah! Teve nada não! Falamos a beça! Das séries todas e tal.

O que deveria ser dito foi dito um pouco. O resto seria outro dia. A abelha falou da dor e do medo, a farofa do conforto, o pudim, carícia. Assim é o não se fala, mas está.

- Amanhã 12h45? 


Maria Laura, SP.


sexta-feira, 4 de maio de 2018

Sombra negra


Naquela manhã de sábado, Ana acordou cedo como de costume. Tomou o primeiro gole de café e respirou fundo, engasgou com o próprio ar. Tossiu muito, mas ainda tinha algo travado na garganta. Achou que o café tinha entrado torto, machucando suas cordas vocais. Era louca por café e logo no segundo gole o calor aliviou a irritação momentânea, assim que o líquido passou pela garganta. Não ousou dizer em voz alta, mas aquele café estava mais amargo que de costume. Na segunda xícara, colocou o dobro de açúcar, mas por trás do melado, algo ainda era intragável, negro, pétreo. Aquele sabor tinha um resíduo que ela não sabia dizer o que era.
Não por acaso, era o dia em que ela sorteava seu jogo de tarot. Embaralhou as cartas, ansiosa pelo resultado. Concentrada, fechou os olhos e cortou o monte, seguindo o ritual místico que envolvia o acesso oracular. Ao colocar o segundo corte na mesinha de centro, onde fazia toda a operação, percebeu que as cartas não pararam onde deveriam e escaparam em direção ao vazio. Se espalharam pelo chão. Ela tinha afastado demais a mão que ficou fora da mesa causando o acidente. Aprendeu que isso era sinal evidente do inconsciente e ela deveria considerar como válidas as cartas que tinham caído viradas. Esse incidente representava seu mês, mais um mês dos 32 anos de vida. Uma sombra passou pela sua mente e foi inevitável considerar que aquilo era um mau agouro, especialmente quando reconheceu o mesmo destino que há alguns anos tinha previsto para sua irmã, que morreu dias depois, de um mal súbito causado por problemas respiratórios até hoje não explicados.  Dentre as cartas viradas, as que se destacavam eram apenas três, inteiramente expostas, declarando o jogo que ela tinha jogado naquela manhã. Finalmente encontrou o que tanto buscava. O mesmo jogo, a mesma combinação. Mudou o foco tentando olhar além do sentimento que insistia em se servir da culpa e do desejo de expiação daquela antiga previsão certeira e fatal. No chão, o baralho de cartas formou o desenho da meia-lua, mas de ponta-cabeça. Era isso ou a tentativa da sua mente de achar conexões mais positivas naquele cenário de azar. Encadeadas uma a uma, sequenciais, para não deixar dúvida que nada era fortuito. O arcano que vinha primeiro era a Roda da Fortuna. Nitidamente o destino se faria presente, levando e trazendo o que poderia ser uma vida que se supunha existir nela. Racionalizou, poderia ter perdas, mas também aprendizados. Por mais que tentasse, era inevitável, estava diante dos seus olhos, as cartas caídas no chão, o destino e o amargo no meio da garganta. A segunda carta, no centro do jogo que o acaso promoveu com o baralho espalhado, estava a Morte, estranha, sinistra, apavorante. O sentido contido no nome do arcano não podia ser ignorado. Já tentou inúmeras vezes tratar essa carta como um aspecto simbólico, mas era reconhecível que esta, na sequência formada, significava o que significava. Tudo parecia cada vez mais sombrio. Só restava olhar a terceira, que ela já tinha visto de relance naquela cena, mas ainda não tinha assumido. O Diabo aparecia agigantado, perturbador. O coração acelerou, o estômago gelou, ela quis se esconder. O telefone tocou, ela teve um sobressalto com o barulho que pareceu tão estranho. Ela não soube quanto tempo durou aquele momento da leitura do tarot, mas tinha sido uma eternidade, foi um tempo incontável, pareceu inexistente, como se ela estivesse fora do mundo. Atendeu e viu que ainda estava na realidade, não tinha ficado louca. Combinou com Inês, a amiga do escritório, de irem caminhar no parque, tudo que ela precisava era de ar puro e sol para iluminar aquele estado de espírito em que se encontrava. Um tom negro tinha ocupado a sua alma. Enquanto andavam, ouvia os sinos da igreja próxima. Tinha uma urgência para ir até lá, um padre poderia acolher sua angústia ou ao menos uma oração podia espantar o agouro que parecia persegui-la. Rezou baixinho, enquanto a amiga falava do encontro da noite passada. Ela estava sozinha mesmo acompanhada. Não ouvia o que a amiga estava dizendo, nem percebia as pessoas à sua volta. Só queria voltar para casa e se esconder. Apertava os dedos uns nos outros, as mãos geladas, a agonia transbordava. Não tinha força para continuar, era hora de assumir que o mundo não lhe pertencia mais. Não conseguia ter equilíbrio naquela situação. Chegando em casa foi direto para o quarto, para a cama, debaixo das cobertas. Seus pensamentos se revezavam entre o julgamento daquela atitude estranha e insana e a entrega a todas as fantasias mais funestas já imaginadas por ela. O corpo parecia se desprender do peso da matéria e um estado inebriante do seu pensamento indicava o sono chegando. Ela evitava dormir, não queria se perder, ou melhor, ser capturada por aquela que a espreitava desde cedo. Pensava em alguns assuntos do mundo, notícias ou o que faria na próxima semana. Ela não era mais dona dos seus pensamentos, eles eram atravessados por momentos da sua vida, situações da infância, imagens descabidas da lua, estrelas ou mesmo caminhos solitários. Os olhos sempre fechados, a mente enevoada, o corpo mole, a atenção que insistia em querer ficar ativada. Perto da porta do quarto teve a impressão de ver sua irmã. Não era real, mas o espírito, um fantasma daquela que há anos já não fazia parte dos seus dias. Num golpe fugaz, aquela imagem se transformou num espectro, uma sombra negra invadiu o quarto e a abraçou forte, envolvendo seu peito, raptando seu corpo. Num sobressalto ela despertou, assustada, ou melhor, apavorada. O que tinha sido aquilo, um sonho, uma impressão, um fantasma? Pavor, ela não parava de sentir pavor. O peito apertado, a garganta amarga, fechada, ela não respirava direito, não conseguia se mexer, estava aprisionada por aquela sombra. Sentia o sopro gelado. Na nuca, o som agudo entrava pelos seus ouvidos e produzia uma tortura nos seus tímpanos. Ela não sabia o que estava acontecendo, não podia gritar. Era a morte? Era um demônio? Estava sendo possuída? O que estava acontecendo? Ela não tinha força para sair dessa situação. O corpo preso e a mente completamente dominada. Sua alma estava em chamas, torturada, atormentada. Ela não tinha mais dúvidas, não tinha mais como lutar, se entregou para aquele espectro, que podia ser um fantasma ou o diabo, mas que já tinha tomado parte dela. Sentiu muito frio, o corpo rodopiava num vazio, pendurada diante de um abismo, solta no nada. Cada vez mais escuro, mais deserto, mais apavorante. Num instante viveu tudo que podia no nada daquele mundo paralelo. Ela nem sabia se estava viva ou morta, ou o que estava acontecendo ali. Uma luz intensa, fascinante, irradiou em toda a sua extensão e ela parecia no mais pleno estado de enamoramento. Deslumbrada, tomada pelo êxtase provocado da plenitude da entrega. Numa espécie de mágica, tudo parou, cessou, silenciou, apagou, encerrou. Os vizinhos acordam com a sirene do resgate que levou o corpo encontrado no apartamento 24-B.

Simone de Paula - 08/10/2016

 
Obs.: Este conto participou do concurso Curtoconto - terror. A página saiu do ar, mas o texto está publicado aqui, agora. O arcano XIII do tarot, a morte, ilustra esta história.