sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A surpresa

De repente, pende na minha frente, balançando solto no ar, aquele que é um dos bichos mais misteriosos que conheço.
Minha primeira reação é a surpresa, porque surge diante dos meus olhos, vindo do céu, de um tamanho bem diminuto e sem asas que permitiriam que estivesse ali. 
Procuro a teia, não acho. 
Como ela chegou assim, sem vir tecendo e descendo devagarzinho?
Veio. 
Ficou balançando diante de mim, dos meus olhos. Transgrediu a gravidade e agora fica dominando meu olhar. Diante do fascínio de vê-la permanecer levitando no ar, minha cabeça tenta pensar o que fazer ou se é venenosa. Mas nada provoca em mim algum tipo de movimento. 
Quero parar o tempo nessa beleza do mundo. Não consigo, ela some, do mesmo jeito que apareceu. 
Procuro, não acho. Já valeu.


Simone de Paula - 5/12/2017



quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Peça

Entraram em cena.
Talheres, barulho, voz.
Respire fundo, aqui exploramos um terreno íntimo.
Somos todos convidados. 
Deveria ter nascido como desejo.
E fui o que eu nem sabia.
Inconsistente e imprecisa. Perfeita na medida de não caber.
Devorada pelo fantasma de uma (s) vida corroída.
Retorno e me visto do que imagino que deveria, em forma.
Abraço um pai, uma mãe, um bebê desnudo, aprendiz.

Aplauso. Fim.
Em reconhecer-se.

Maria Laura


quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Lágrima

Diante da lágrima que se precipitou do seu olho, pode ver com maior clareza, no tamanho exato da necessidade da sua visão, a letra que insistia em ser uma bailarina incansável que se movia sem coreografia certa.
Viu, muito brevemente, viu. Foi maravilhoso, mas secou a lupa que tinha se formado no seu próprio corpo. Rolou a lágrima, perdeu o foco, chorou.


Simone de Paula -21/11/2017

Ciranda

Algo em você sabe que um momento gira para o outro 
preparo requintado que leva tempo, desejo
parece que não está certo ser tanto por coisa tão pequena
esqueceu que as medidas não são cores primárias,
mas infindáveis: temperatura e ar 

espero

amorneço.

Maria Laura

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Timoneiros do apocalipse

Estavam sentados lado a lado no banco do shopping, em frente à loja de artigos de cama, mesa e banho. Era irônico. Os corpos próximos pela intimidade de anos de convívio constrastavam com a distância que tinha se instalado entre eles. Patrícia notou o reflexo deles no vidro da loja. A imagem se misturava com as promoções de lençóis. Era um fato, estavam baratos, talvez ela até precisasse comprar um jogo. Mas não negou a surpresa que sentiu em notar a si mesma com pensamentos tão banais nesse momento, ao lado de Alberto. Tinham se encontrado para falar da assinatura da separação. Os advogados pareciam dificultar um processo que os dois queriam muito. Não se olhavam, não falavam, nem sabiam porque tinham que estar ali, pagando a fortuna que estavam pagando para os trâmites do divórcio.
Casaram por amor e vontade de construir algo juntos. Separaram porque tiveram tantas coisas juntos que não sobrou espaço para as individualidades necessárias, que é preciso para cada ser humano se sentir único. Tudo clichê. Ela casou porque precisava desesperadamente de alguém para ajudá-la a viver uma vida que queria, mas não tinha forças para realizar. Ele casou porque era muito carente e tinha medo de ficar sozinho depois da morte dos pais. Casaram para ser ‘para sempre’, mas não imaginaram que escolheram a ‘pessoa errada’. Ela buscou o pai ideal, ele a mãe perfeita. Erraram feio no alvo. 
Alberto finalmente percebeu o reflexo deles naquela vitrine gigante, olhou nostálgico, percebeu um traço da beleza que viu em Patrícia no primeiro encontro. Ela era viva, mas beleza não tinha tanta assim. Isso inclusive foi bem importante na segurança que ele sentiu quando decidiram casar. 
Os pensamentos frouxos dos dois, o silêncio calmo daquele momento, a visão de um horizonte que parecia melhor do que o lugar onde se encontravam. Realmente, nem se deram conta do que viria pela frente e estavam justamente no meio de todas as fantasias e ilusões que acreditaram ser a vida e a felicidade.
Um idoso encosta no ombro de Alberto pedindo para ele abrir espaço no banco para poder sentar. Alberto chega mais perto de Patrícia, que ao mesmo tempo tirava a bolsa que estava ao seu lado para dar lugar à criança que tomava sorvete com a mãe. Ela parecia não se importar com aquilo, mas sentiu, sentiu algo, abafou algo.
Finalmente se olharam através do vidro, imagens misturadas com produtos em liquidação, agora ladeados pelos novos personagens daquela cena vazia.
Ela sentiu nele a apatia. Se ela não começasse a falar, passariam horas ali e nada resolveriam. Mas era um assunto que deveria ser começado por ele, que estava criando problemas com a divisão dos bens que construíram em dez anos juntos. Ele viu nela a insegurança. Jamais ela começaria a conversa, mas a qualquer palavra dele, ela tentaria levar as coisas para uma discussão enorme. Ele só queria o jogo de jantar que a Tia Lina tinha dado, porque era importante para ele, ainda que ela adorasse aquela louça.
Emoções afloradas pela presença dos novos personagens e pela proximidade dos corpos. Continuaram se olhando através do espelho que a vitrine se tornou. Ela olhou a criança e olhou para ele. Ele entendeu que ela estava receosa que pingasse sorvete na sua roupa. Mas o que ela queria mesmo ter dito é que talvez um filho teria evitado a situação. Ele mexeu os lábios e inclinou a cabeça para o velhinho que mexia na receita médica que tirou do bolso, tentando enxergar bem o que estava escrito. Ela achou que ele estava achando que um idoso não deveria andar assim, desacompanhado, pelo shopping. Mas ele queria mesmo dizer que eles chegariam na velhice sozinhos. 
No mesmo momento, a mãe da criança pede para ela olhar a menina por alguns minutos enquanto ela ia jogar os guardanapos no lixo e o senhorzinho pediu para ele decifrar a letra do médico. Ajudaram. Olharam verdadeiramente para a solidão que seria a vida deles no futuro. Ele, um velho que precisaria de estranhos. Ela uma menina, que contaria com quem encontrasse pela frente para tomar conta dela. Eram isso, desde sempre. Recusaram ser outro. Casaram para ter o par perfeito para quem eram e não para ser o par construído para o outro. 
A mãe agradeceu, pegou a criança e saiu. O velhinho pegou a receita e entrou na farmácia quase em frente. Foi tudo tão rápido que nem precisariam de fato deles. Se olharam, não falaram. Ela nem lembrava mais que pensou em lençol e ele nem sabia o que estava fazendo ali. Sentiam raiva, decepção, medo, aflição, não tinham como falar do jogo de jantar.
Patrícia levantou, com seu habitual modo de ser, que parecia ativo e decidido. Ele levantou logo depois dela. Se olharam finalmente nos olhos. Ele falou, porque ele dava a dianteira das coisas mais práticas ali. Disse que ficaria com o jogo de jantar e pronto. Não tinha porque estender essa situação por pratos. E a tia era dele. E por fim completou que ela deveria agora ir atrás do próprio jogo de jantar, pois ele foi incapaz de oferecer isso para ela. Ela assentiu, mexendo levemente a cabeça e estendeu a mão. Se despediram. Ele seguiu em direção à farmácia, precisava comprar analgésicos. Ela entrou na loja de lençóis, não perderia a promoção. Seguiram. O que estava debaixo de camadas de expectativas criadas neles para a vida, continuou ali, escondido. O que pensaram um do outro, permaneceu no pensamento que escapou na hora que levantaram. Não entenderam porque se separaram como não tinham entendido porque tinham se separado. Alívio e pesar, era com isso que saiam do casamento, mesmo que ele tenha ficado com o jogo de jantar e ela tenha permanecido no apartamento. 


Simone de Paula - 18/11/2017

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Melodia

Ela não parava de falar. Reprovava tudo o que eu dizia.
Eu gritava um acolhimento que não nos damos, com direto a deprimir-se em quarto escuro e choro de joelhos no chão. 
Sem chão.
Deixa eu ficar triste quando for hora de ficar triste!

Ela não parava de falar. Dizia que pensar negativo é mente suja.
Ai como perdi a paciência. Não podia lidar com uma fala fantasiosa dessas. Com uma unilateralidade infantil e grotesca estampada em um rosto todo modificado pela dor que evita incansavelmente. O sorriso feito de durex, pregado com cola gasta. Prestes a desmoronar.

Eu gritava dentro, urrava sem dizer de uma vez:
Respeite a hora das suas coisas. Escute o afeto. Presencie o descontrole. Atenta, atenta.

Não me imponha, componha. 
A si mesma mulher!


Ela era eu?

Maria Laura

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Me tiro daqui

Eu só fiquei doente pra fugir do que eu não queria fazer. Descobri isso hoje, olhando pela janela e sentindo um sufocamento desconcertante. 
Aonde chego, olho em busca de janelas, mesmo que eu tenha acabado de chegar da rua, atravessado a porta de entrada. É como um escape para os olhos, o refúgio para respirar. Não respiro só pelas narinas ou pela pele, mas respiro pelos olhos. Minha mente precisa de ar, muito ar. E esse ar não vem apenas do próprio elemento, da brisa ou do vento, mas ele chega pelas imagens, pelas ideias que as imagens entregam. Mas voltando, olhei pela minha janela fechada, senti o sufocamento e pensei: preciso sair daqui. Eu ia sair, já tinha um dia de compromissos, mas naquele momento, olhando três pessoas pegando o ônibus na esquina, o vento soprando nas árvores e balançando os vidros, tudo isso me parecia uma prisão, porque eu estava aqui dentro, livre, solta, mas ainda aqui dentro. 
Eu já sabia que um recurso para evitar o que eu não queria fazer era adoecer. Mas eu não fui uma pessoa doente, pelo contrário. Até inventei umas quatro caxumbas para não participar de festa junina ou desfile de sete de setembro. Cada situação desagradável dessas me pedia um recurso. Confesso, eu tinha poucos recursos de recusa, mas vez ou outra, a dor de garganta se convertia em caxumba. Não era só doença inventada, parecia de verdade porque doía. 
Eu também tive a dor de ouvido que era de verdade verdadeira e me impedia de ir para o mar e para a piscina, minhas paixões eternas. 
Isso me ensinou que inventar doença é uma coisa que a gente deve usar com parcimônia, porque quando é de verdade, te impede de fazer o que quer muito. Logo, funciona como o avesso do direito. Além do que, ainda podia ser um castigo divino por ter mentido. Mas sabe que esse deus aí, que castiga, nunca colou muito, porque quem castiga é gente viva, encarnada. Não tenho medo nem de fantasma, nem de assombração, e de deus, menos ainda. 
Na infância, penso agora, minhas dores se concentravam na garganta e ouvido, me impedindo de engolir, de ouvir. Um pouco mais velha, as amigdalites chegaram, e além de engolir, me impediam também de falar. Depois, veio algo mais enigmático, o lado de trás, as costas, que me limitavam o andar. Olha que coisa, eu querendo fugir e meu corpo me impedindo de ir, fazendo ficar. 
Resolvi muitos problemas, mas novos insistem em inaugurar um desconhecido em mim. Eu digo sempre pro meu analista que eu devia ser melhor nessas estratégias, porque o que era para ser uma boa mentira com ganhos satisfatórios, se torna verdade de um jeito meio tosco e me sobra problemas para resolver. Vou sair daqui antes que meu tornozelo comece a doer.


Simone de Paula - 05/11/2017